━Autora Independente do Cosmos.
Atualizada em: 25.07.2025
Sexta-feira
14 de outubro
Seul
14 de outubro
Seul
— O senhor quer que eu faça o quê?!
Saiu mais alto do que eu pensei. Baker me encarou sem se abalar com o tom (ele já tinha se acostumado com meus escorregões de falta de formalidade há muito tempo).
— Você ouviu bem, . Preciso que me faça um favor. Considere como hora extra paga.
A versão em miniatura do Arnold Schwarzenegger voltou a digitar no computador como se eu nem estivesse ali. Molhei os lábios e me contive com esforço para não responder de imediato, uma resposta que não se encaixava no vocabulário de alguém que precisava de um emprego.
Infelizmente, minha língua andava um pouco mais solta desde o feriado, porque agora eu andava percebendo como era um saco quando você queria ficar quieta e se afundar nos seus próprios pensamentos autodepreciativos e nenhum raio de ser humano deixava.
Claude Baker, até então, estava sendo indiretamente compreensivo com meu mau humor. O mercado oscilava na velocidade normal, eu me afundava em planilhas e dados (e café, muito café), enquanto ele bebia chá de capim-limão, admirava a foto de sua cachorra no porta-retrato (ele a amava mais do que aos filhos) e esfregava o relógio de corda em cima da mesa, um modelo antigo repelentemente feio que provavelmente poderia ser encontrado largado ao lado de uma lata no depósito de lixo, mas que ele insistia que era uma fortuna.
Os ponteiros me diziam que eram 15h32. Ainda. Estava muito cedo para qualquer ser humano ouvir absurdos.
— Tudo bem… — minha voz era uma porção mecanizada, hesitante. — Mas… o senhor precisa mesmo disso? Porque se for só uma questão de querer…
— . — ele só disse isso, mas eu não precisava de mais. Só aquele olhar duro em cima de mim explicava o quanto aquilo não era realmente um pedido.
E ele não estava me pedindo para ir buscar um suco de tâmaras da Índia, ou qualquer coisa mais difícil que eu faria questão de conseguir.
— Ok, entendi. — tentei não bufar. — O senhor quer que eu leve a sua filha ao festival?
— Exatamente. Lugares barulhentos com outras crianças barulhentas é o passatempo favorito dela, mesmo que deixe de estudar pra ficar obcecada com esses garotos. Ela só tem 14 anos, precisa começar a pensar na faculdade, não acha?
— Claro que sim, senhor. — os cantinhos da minha boca subiram na minha tentativa de sorriso, mesmo que Claude nunca olhasse de verdade para mim para saber se eu estava rindo, chorando, ou falando. Estava treinando aquela cordialidade falsa há dias, me cansava tanto quanto o Pilates.
— Pois então. Tenho uma reunião super importante com o grupo Wang nesse horário pra falar sobre criptomoedas e não podia dizer não. Precisei cancelar meu compromisso com ela, sabe como é, adolescentes surtam por qualquer coisa. E a governanta que pago uma fortuna precisou ir à Paju porque a mãe caiu de uma escada. Mas fica tranquila que quando ela estiver na frente do palco, não vai ter tempo de ficar brava com mais nada e ninguém.
Vai achando, desdenhei confortavelmente na minha cabeça. Mesmo se eu falasse, estaria tudo bem, já que Claude não entendia sarcasmo.
— Eu imagino. — balbuciei, sem vida. Nenhum motivo que ele me desse me faria pensar que ele não estava sendo um babaca. Ele era um bom chefe, sim, sempre teve muita paciência comigo e meu alter ego Murphy sim, mas não imaginava que isso me faria ter que aceitar ir à um show onde os gritos da plateia sub–15 eram como os momentos finais de uma briga fatal entre gatos.
Bom, acabou de acontecer.
— E tem outra coisa também. — ele suspirou e me encarou por um minuto inteiro antes de falar: — Não estou te pedindo para levá-la só porque confio em você e sei que vai ser responsável, mas também porque sei que você conhece aqueles garotos.
Arregalei os olhos, ficando em posição de rigidez cadavérica. Não conhecia bem os detalhes de uma pessoa em choque daquela maneira, mas tinha certeza que existia uma sensação de morte envolvida.
— E-eu, é… Conhecer? Como o senhor pode saber disso?
— Por favor, , acha mesmo que as pessoas não fofocam? Te ver entrando numa Mercedes Class no fim do expediente é pra ser uma coisa normal?
— Bem, poderia ser? Posso estar saindo com um cara muito rico, só isso.
— Então está saindo com um deles?
— Senhor Baker! — o grito veio antes que eu me tocasse. Ele me encarou um pouco aborrecido. Continuei parada, agora desviando os olhos para baixo em uma expressão de desculpas. Sim, aparentemente meu chefe poderia admitir que era um fofoqueiro e expôr a existência de uma conspiração de corredor que insinuava que eu poderia ser uma vagabunda inacreditável que saía com caras ricos e famosos em busca de… bom, dinheiro não poderia ser, caso contrário eu não estaria mais aqui.
— Isso não me importa, , e vou fazer o favor de não contar à Patricia sobre suas amizades secretas, mas preciso que você dê um jeito de levá-la ao camarim depois.
— É o quê? — outro grito. Ok, eu precisava parar.
Desta vez, ele apenas estreitou os olhos e relaxou na cadeira.
— O quê? Você não faria isso de qualquer jeito depois?
— Eu… Eu… — gaguejei como culpada. O assunto que envolvia a mim e minha relação com idols era um tanto sagrada, e nesse último mês especificamente, queria que passasse a ser completamente inexistente.
No entanto, ali estava eu, tentando responder que nem sabia se iria ao camarim privilegiado do grande festival de Seul porque não tinha o menor plano de ir naquele evento depois de beber uma garrafa inteira de vinho sozinha na minha casa duas vezes por semana no último mês toda vez que me lembrava quem estaria lá.
— Eu não sei se consigo fazer isso, senhor. É muita burocracia entrar em um camarim. — foi minha resposta final, mas senti que não seria o suficiente porque era claramente uma mentira descarada.
Ele respirou fundo, finalmente tirando os dedos do teclado.
— Eu juro, , não é um plano maléfico te pedir esse favor, mas já comprei o ingresso mais caro e ele cobre apenas o espaço VIP bem em frente ao palco, que ainda vai manter Patricia muito separada de seus amores, segundo as palavras dela. Realmente não é minha intenção ficar de pé durante três horas para assistir esses garotos cantando e dançando, mas posso confiar isso à minha assistente mais competente e ainda por cima conceder um pouco de felicidade à minha garotinha que vai poder conhecer todos eles depois.
— Senhor Baker…
— Sabe, , aquela promoção que você tinha comentado comigo ainda está na balança. Diretora de renda fixa, hein… coisa grande. E eu venho reparando nos seus cálculos, eles têm nos ajudado a bater as metas. Mesmo depois de ter trocado os papeis três vezes e esbarrado no CEO da Alemanha aquela vez em Miami, não cheguei a descartar seu nome em nenhum momento.
Contorci os lábios. Foi como se ele tivesse me dado um empurrão. Aliás, isso ainda teria sido melhor. Aquele olhar significava um enorme “te peguei”, e senti raiva por ter que me curvar diante daquela chantagem ridícula.
Porque meus cálculos sempre foram bons, e se o mundo fosse justo, eles já teriam me levado para muito além de uma diretora de renda fixa, mas Claude Baker, o senhor fodão na frente de uma das corretoras mais fodonas do país, me concederia um degrauzinho acima por levar a filhinha dele a um concerto.
Mais um gatilho para o meu humor péssimo.
— É uma gentileza sua, senhor Baker. Sabe como eu quero essa promoção. — lancei mais um daqueles sorrisos forçados. — E pra melhorar minha imagem, acho que eu deveria aceitar realizar esse… favor.
— Isso, boa garota. Você é preciosa. Vou trazê-la pra cá às 7, tudo bem?
— Claro. Vai ser um prazer.
Voltei para minha mesa como se tivesse acabado de ver Baker de samba canção. Algo que misture repulsa com pavor. Seis meses antes, eu seria capaz de fazer qualquer baboseira que esse homem me pedisse para agradá-lo e elevar meu valor como profissional, mesmo que tivesse de subir num monociclo e fazer manobras de circo, mas agora algumas coisas pareciam diferentes, e uma delas era que eu não andava muito paciente (e ficaria menos ainda por estar em um lugar onde eu definitivamente não queria estar).
Encarei a tela do meu computador com a mente aérea. Tive uma vontade súbita de levantar e parar no primeiro estúdio de tatuagem que encontrasse, pedir o primeiro desenho negro e intrincado que cubra a maior parte das minhas costas e suba pelo pescoço porque precisaria apenas disso para receber um grito de demissão. Queria berrar também, o que irritaria o homem de qualquer jeito. Queria fazer qualquer coisa para tirar essa sensação claustrofóbica de mim.
Se o favor se limitasse em levar a adolescente ao festival estaria tudo bem. Mesmo. Eu realmente não estava pretendo tirar minhas roupas monocromáticas do armário e correr para a arena onde seria o show, mas encarar várias apresentações da plateia era melhor do que entrar no backstage e ver ele. Ver todos eles. Porque isso era possível, era muito possível, na verdade se eu estivesse lá e não o fizesse, seria automaticamente exilada do posto de mascote.
Mas meu medo e minhas lembranças confusas não estavam me deixando enxergar o privilégio e o glamour dessa posição.
As palmas das minhas mãos suavam só de pensar em encontrar Jaehyun de novo. Jaehyun, o cara que iria se declarar para mim no mês passado, o cara que me deu o melhor beijo da minha vida e o cara que não respondia minhas poucas mensagens desde que tinha ido embora mais cedo de Jeju. Digo, não respondia da forma como eu queria. Era só um conjunto tosco de palavras, que incluíam sim, não, claro, tudo bem. Era como conversar com uma inteligência artificial.
Eu nunca disse a ele que sabia. E ele também nunca me falou, exatamente, o que faria caso o momento das lanternas tivesse existido. Honestamente, nem sei o que eu faria caso soubesse daquilo tão diretamente. Sempre que possível, estava tentando tirar isso da cabeça, mesmo que estivesse sempre falhando.
Porque Jaehyun não era o único bloco confuso nisso tudo.
— ? — Chaja, minha vizinha de mesa judia, se aproximou da minha e largou ali uma pasta transparente cheia de papéis e um café gelado. — Preciso dessas planilhas atualizadas até às 6. E chegou o seu café.
Fiquei confusa.
— Mas eu não… — tentei, mas ela já estava indo embora. Típico. — Não pedi um café.
Suspirei, pegando a encomenda e sentindo o cheiro violento e agradável do café expresso com leite e caramelo. Meu favorito, e também tão lindo visualmente que sempre que via, queria comprar um.
Um bilhete estava jogado dentro da caixinha de papelão. Um desenho de um sol junto com montanhas e o mar acompanhavam a frase com a caligrafia torta e familiar:
“E aí, . Espero que esteja mandando ver no seu trabalho escravo (sem ofensas). Sábado à noite combina com aquelas comédias românticas dos anos 90 com mais de 3 estrelas que a gente usa de exceção. Green Card, hein? o que você acha? Podemos tentar fazer aquela coisa nojenta que leva sorvete e coca-cola, tipo o que a Sally Field fez naquele filme. Quando eles vendiam coca-cola por 0,80 centavos. Enfim, eu aceito tudo.
P.S: pode responder minhas mensagens, por favor? Levar um gelo é pior do que eu imaginei. Já disse que podemos conversar. Pensa nisso.
L. D.”
Afastei o recipiente do café com um som áspero que ressoou pela mesa inteira, fazendo o garoto sentado à minha frente olhar por cima dos óculos. Aquilo era um pesadelo. Ainda era difícil de acreditar que eu, sem ter caído do 9º andar de um prédio ou ter recebido uma lobotomia, estava sendo capaz de ignorar mensagens de Lee Dongmin.
Peguei meu celular imediatamente, digitando o convite para beber diretamente para Nellie, de uma maneira bem-humorada, mesmo que minha expressão da vida real diga o contrário. Como sempre, ela me respondia muito rápido quando eu mencionava caipirinhas e cerveja artesanal.
Coloquei meus fones de ouvido, ligando-os no computador e jogando o celular no fundo da bolsa. Planilhas e números seriam mais fáceis de lidar do que toda a bagunça que minha vida tinha se tornado.
— Que porcaria! — Nellie cuspiu o gelo de seu drink para dentro do copo, fazendo um barulho significativo que foi abafado pela música cafona ao redor. Estendi as mãos para puxar o meu próprio copo, que só tinha cerveja usual e barata porque aquela noite não era uma comemoração. — Isso aqui definitivamente não é rum.
— E nós definitivamente não estamos em Itaewon. Pega leve. — ergui uma sobrancelha para suas expectativas frustradas. Não estávamos em Itaewon e nem em qualquer lugar que parecesse vender o que dizia que vendia.
Nellie apenas suspirou e estalou os dedos para qualquer pessoa com um bloquinho que a visse. A música subia como um lamento no ar.
— Não tem problema, ainda temos soju. — ela levantou a cabeça enquanto virava um shot pequeno da bebida e fez a famosa careta. — Mas e então! A gente vai ter companhia amanhã no festival? Amo apresentar carne nova às after parties, será que-
— Ela tem 14 anos, Nellie. — interrompi, percebendo que esperei ela beber demais antes de começar a reclamar. — Meu chefe quer que eu leve a filha dele para o evento da KBS amanhã e eu não tive nenhuma escolha a não ser aceitar. Eu nem queria ir, você sabe disso. Não sei o que fazer… — apoiei um dos cotovelos na mesa e, quando o fiz, Nellie recebeu mais três garrafas de cerveja de um cara alto com uma regata de estampa de flores e omoplatas bem definidas.
— Como não sabe o que fazer? Você vai e ponto.
— Acorda, ele quer que eu a leve ao camarim depois. Como vou olhar pra ele, Nellie? — soltei um gemido de indignação e, talvez, até um pouco de sofrimento.
Minha amiga revirou os olhos e tive certeza que ela já estava com um belo sermão em formação pra mim. Mas antes, não se esqueceu de virar mais um grande shot de soju.
— Olhando, ! Com esses seus olhinhos de tatu. Caramba, você ainda tá perturbada com isso. Eu não acredito que ainda não pegou um táxi e foi bater na porta do apartamento dele, fala sério, o que está esperando?
Inclinei a cabeça para trás, abrindo e fechando a boca várias vezes antes de responder como uma idiota.
— Eu não posso fazer isso, Nellie. Quer dizer… Eu não sei, tá bom? Eu só… Não sei. Tenho medo de perguntar o que aconteceu de verdade, tenho medo de ver tudo ganhando vida, tenho medo-
— Você tem medo de viver, isso sim. Qual é, já basta todo o mal entendido de ter pensado que Dongmin te beijou, ter perdido sua pouca sanidade tentando entender o que se passava naquele único neurônio, dado uma mísera chance pra vocês e percebido que nem toda onda de amor dura pra sempre. Só te resta colocar as coisas no lugar agora, .
— A gente pode não falar do Dongmin? — puxei o copo mais uma vez, comunicando pelas minhas sobrancelhas arqueadas o quanto aquele assunto era uma porta fechada. Fechada até que eu entendesse tudo que estava acontecendo.
— O quê? Ele se transformou no grande emocionado da vez?
— Eu não diria emocionado…
— Vocês se agarraram mais vezes desde aquele dia?
— Nellie.
— O quê? Esses detalhes são importantes.
— Nós não… — parei. Bufei. — Foi só uma vez.
— Duvido.
— É sério.
— Depois da exposição?
— É. Antes de eu ter a conversa com ele.
— Depois da exposição?
Tive vontade de dar um surto e pular nas orelhas dela. Meu estômago se convulsionava sobre si mesmo só de relembrar aquilo.
Não vi Dongmin muitas vezes depois de Jeju. Na verdade, não via mais nenhum deles, tirando Nellie, que sempre foi o bloco de normalidade na minha rotina extremamente mundana. O grande Cha Eunwoo era uma das pessoas com a agenda mais lotada do país, indo de norte a sul sem parar, tirando fotos para revistas, lendo scripts para novos dramas de TV, tendo reuniões com grifes, marcando viagens internacionais e tantas coisas que não me faziam sentir um pingo de inveja do seu trabalho. Já era muito difícil para mim dormir fora da minha cama.
Mas ele estava sempre me ligando. E um dia estava em Seul às onze da noite. E quis ir comer mingau de abalone no restaurante de um amigo. E eu não estava exausta o suficiente.
Foi bom falar dos nossos filmes, contar piadas e discutir sobre o fiasco milionário do próximo banco que estavam construindo na divisa do Rio Han. Foi bom comer um peixe sofisticado sem ter que pagar por isso. Foi bom rir com ele. E foi bom beijá-lo no fim da noite também.
Na verdade, Dongmin me beijou. E meu sistema nervoso não estava exatamente livre dele para recusar. Foi bem na hora da despedida, quando já eram duas da manhã e os postes da minha rua se recusavam a usar todo o seu potencial de energia. Dongmin passou os braços em volta de mim, me puxou para perto dele com a palma na minha lombar e me fez viajar para outro continente em um beijo que, tenho certeza, ele nunca encenaria na TV.
Quando fiquei sem fôlego, estava zonza demais para dizer algo inteligente.
— Você devia ir pra casa. — murmurei, a boca ainda grudada na dele. Seu peito vibrou em uma risadinha.
— E você devia me dar a chave pra gente subir.
Todos os músculos do meu corpo se retesaram. Arrepios tomaram a minha nuca em fios elétricos. Me afastei dele num reflexo.
— Hum, eu… talvez a gente não devesse fazer isso.
Ele piscou, surpreso com minha distância de repente.
— O quê? Subir?
— Você sabe do que eu tô falando.
— , eu não quis dizer pra gente transar.
— Meu Deus. — minhas bochechas arderam. — Eu sei. Não era isso… Eu não tô sabendo o que pensar disso ainda, entendeu?
— Disso o quê?
— Disso. A gente. Se beijando e tudo mais.
— Ainda tá tendo que pensar nisso? — deu de ombros, um sorrisinho quase inocente nos lábios delineados. — Não precisa, a gente pode só fazer. — ele voltou a me puxar, pronto para me beijar de novo, mas empurrei seu ombro de leve.
— Você sabe o que tá fazendo? — frisei. Ele vincou a testa.
— Te garanto que nunca estive tão à par do mundo real quanto agora. Sabe, beijando minha melhor amiga. — Dongmin inclinou a nuca e raspou a ponta da língua no meu maxilar. — Querendo isso pra caralho. Achei que tava claro.
Quis protestar. É, independentemente das coisas desconhecidas e caprichosas que se passavam na mente de Lee Dongmin, ele me beijava como alguém que… queria me beijar. De verdade.
— É que… você tava super preocupado com isso antes… — mesmo assim, fui falando. As palavras estavam saindo sem consentimento do meu cérebro.
Ele ergueu a cabeça, de novo com aquele vinco na testa.
— Isso foi só no dia que você fodeu minha cabeça me beijando. , eu já disse que gosto de você, qual o problema? — ele me soltou para gesticular com as mãos. — Eu sei que eu demorei. Sei que você me viu sendo um idiota com uma porção de garotas com o passar do tempo, mas você é a última pessoa que eu quero magoar, . Eu juro, eu quero tent-
— Não, não. — balancei a cabeça. Estava me sentindo sufocada de repente, querendo tapar a boca dele com a mão. — Não, a gente não precisa disso. Não precisamos… transformar isso em uma coisa gigante. Podemos… não sei, ir levando. Nos divertir.
Olhei para ele, sem saber exatamente o que estava passando no olhar. Eu me sentia esquisita, como nunca tinha me sentido antes. Queria que ele me beijasse, sim. Me sentia eufórica com o efeito das mãos dele sobre mim, exatamente como sempre imaginei. Sentia uma sensação pequena no âmago, que me dizia que tínhamos o potencial de fazer isso sem estragar tudo no quesito da amizade.
Mas quando deitava a cabeça no travesseiro, minha mente estava me traindo. Dia após dia. Evocando imagens complicadas de explicar, me provocando sensações quase impronunciáveis.
Nenhuma com Dongmin, o cara dos meus sonhos.
Na minha frente, um lapso de estranheza passou pelos seus olhos, mas deu para ver que ele não estava disposto a discutir aquela dinâmica estranha agora. Devia pensar que eu estava sendo cautelosa, só isso.
— Tudo bem. É. Parece legal. — afirmou, assentindo. — E a gente pode se divertir sentado no chão da sua cozinha enquanto eu ataco aquele seu pote de pasta de amendoim que você faz estoque? Tá meio frio aqui fora.
Ri pelo nariz.
— Só porque hoje é sábado. Vem.
E nós subimos para atacar a pasta de amendoim, dando alguns beijos no elevador e contando piadas sobre a minha prima mais velha e o jeito que Dongmin amarrava os sapatos. Nada demais. Sem complicação.
Mas as coisas não seguiram assim. Pelo menos, não para mim.
Eu não sabia exatamente como seria “me divertir” com Dongmin. Nunca estive em uma relação “divertida” com ninguém, e sabia que aquilo tinha saído de mim mais por necessidade em dizer alguma coisa do que por legitimidade de sentimentos. Mas eu não esperava que ele fosse ficar… extremamente comunicativo. Questionador. Grudento.
Ou que eu fosse ficar fugindo demais.
Saí com ele mais umas três vezes depois daquele dia, e era legal. Quando chegava ao fim, eu dizia a mim mesma que poderia me acostumar a beijar Dongmin sempre, a fazer o que o calor irradiando no meu corpo inteiro quando ele me tocava queria fazer, a dar um nome para aquilo. Ele vivia me perguntando discretamente sobre isso e eu nunca sabia o que dizer. Não queria dizer. A gente se dava tão bem nessa dinâmica estranha.
Mas as coisas ruíram há uma semana. Exatamente no dia da exposição de Nellie no Museu Nacional, que estava fazendo um evento para os aspirantes universitários.
Ela convocou a todos, sem opção de negar, quer a avó estivesse morrendo ou não. Minha cabeça estava lotada de coisas do trabalho (registros de ativos, para ser específica). Aquele lugar andava sendo meu inferno na Terra, porque as coisas estavam me tirando a paciência muito fácil — como o senhor Baker ter anotado uma ideia minha para usar como sua na reunião dos acionistas e eu não dormia dignamente bem desde Jeju, mesmo estando na minha própria cama, o que dificultava a parte de ter um raciocínio minimamente rápido. Quando cheguei ao museu, sentindo frio porque estava esquecendo da aproximação do inverno, fui obrigada a ver Mingyu já pairando em volta do quadro com uma camisa espantosa, tanto pelo aperto quanto pela estampa viva. Do lado dele, Nellie usava uma calça boca de sino que era larga o suficiente para esconder pequenos animais. E depois tinha…
Ele. Jaehyun.
Ele estava concentrado em outra pintura, deslizando o olhar quase hipnótico sobre um quadro com moldura dourada que não me dizia nada, mas que para ele, pareciam ter pelo menos oito interpretações diferentes. Parei na mesma hora, andando a passos de tartaruga, sentindo ainda mais frio do que antes.
Yugyeom estava ali, tagarelando alguma coisa com Jaehyun, que apenas balançava a cabeça sem se virar, o cabelo escuro agora no meio da nuca, o casaco de couro pesado por cima do jeans caindo tão bem nele quanto todo o resto. Não dá para explicar o que senti. E eu nem queria, porque a primeira delas foi vergonha. Uma necessidade boba e até idiota de dar meia volta e ir embora.
Mas antes que eu tomasse qualquer decisão, ouvi o grito de Nellie:
— chegou!
Mingyu e Yugyeom se viraram. Percebi que um outro cara totalmente encapuzado, que me faria discar a linha telefônica da polícia caso encontrasse em um beco vazio, era Jungkook, que me deu um tchauzinho discreto. E Jaehyun também se virou.
Nunca vou saber elucidar aquele olhar. Nem sei se eu queria isso. Mas a vontade de ir embora passou. Desapareceu como se nunca tivesse existido.
Cheguei mais perto, cumprimentei, abracei Nellie e elogiei seu trabalho de meses operado no segundo andar de um ateliê famoso na cidade. Não chegaria a valer nem 300 mil wons, mas ela não estava ali para assustar. Nellie tinha planejado expor sua genialidade aos poucos, evoluindo a complexidade dos seus quadros até se transformar na Van Gogh moderna (ou qualquer um que cobrasse basicamente um dólar por minuto dividido com a sua arte).
Eu tinha total consciência da presença de Jaehyun, como se ele estivesse dividido em dois, mas não me acheguei. Também porque notei, com uma grande decepção, que ele tinha voltado àquela postura de não me olhar. Não o tanto que eu queria que ele me olhasse (daquele jeito, de quem estava fazendo um exame bondoso dos meus arquétipos).
Mas quem tinha sua total atenção eram as pinturas estranhas que, honestamente, eu conseguiria reproduzir cuspindo um pouco de ketchup na tela.
— Você tá um pouco despreparada, gata. — Nellie murmurou no meu ouvido, me fazendo virar para o outro lado. — Sua saia é linda, mas disseram que vai fazer dez graus lá fora hoje.
Me abracei. A saia xadrez vermelha era mid, porém a minha bota era curta e eu morria de frio com muita facilidade. Nellie, por outro lado, estava com uma camiseta de manga curta e o cabelo bem preso em um coque no alto da cabeça, a nova-yorkina nata com sangue canadense.
— Só me resta torcer pro Uber não estar com o aquecedor com defeito tipo aquele do inverno passado. — resmunguei em resposta.
— Uber? Como assim? Não vai embora com o Dongmin?
— Ah… — franzi o cenho por um segundo. — Ele ainda tá no Japão.
— Ele disse que viria. Com toda a certeza. — Nellie ficou na minha frente, piscando os olhos várias vezes e abrindo a boca. — Ah, meu Deus, será que acabei de estragar uma surpresa?
— Supresa? — para mim? Ela riu dentro da palma da mão, balançando os cachos loiros com divertimento. — Espera, ele vem mesmo?
— Agora não sei mais, ele é muito mais bondoso pra contar fofoquinha pro Mingyu. Mas enfim, vou ali dar uma de estátua sorridente do lado da minha obra-prima. Vai que um velho ricaço se interesse por ela.
— Alguém vai te dar um cartão de visitas ainda hoje, Yohn.
— É, só resta saber se vão me atender quando eu ligar. Tá cheio de filho da puta nesse ramo. — Nellie baixou a voz e ajeitou minha franja. — Você tá linda. Falo com você daqui a pouco. Tem champanhe de graça ali.
Ela apontou para uma mesa retangular recostada ao lado de uma escultura grega e saltitou para perto da sua obra, onde algumas pessoas estavam tirando uma foto. Fiquei parada por um tempo até ter coragem de virar a cabeça de novo para ver Jaehyun.
Ele tinha se afastado mais um pouco, olhando outro quadro, se perdendo ali no meio. Eu deveria deixá-lo onde está, como sempre fiz. Essas saídas ocasionais em grupo funcionavam desse jeito para a gente: Jeong Jaehyun era uma peça inestimável entre os cinco garotos, mas tinha o seu jeito próprio e aparentemente seletivo. Todos queriam ser seu amigo, mas não quer dizer que conseguiam. E antes eu pensava que tudo bem, que eu não tinha nada a ver com isso, e nunca teria, porque em alguma fenda do espaço tempo, pisei no pé dele em um bar e o cara me odiou para sempre.
Mas o peso daquela lanterna de papel ainda estava na minha mão, a textura das palavras marcadas a ferro no meu cérebro. E agora tudo aquilo estava me engolindo como um poço só de estar tão perto dele.
Eu tentei esquecer. Tentei deixar para lá. Era muito fácil fazer isso quando eu estava ocupada demais trabalhando, calculando, limpando e beijando Dongmin no meu sofá, para depois comermos uma pizza no meio da cozinha só com as roupas de baixo enquanto ele fazia uma série de sugestões cuidadosas sobre como melhorar seu piso laminado.
Mandava meu cérebro se revezar em todos esses pensamentos. Mas essa coisa não ia embora. A dúvida, a confusão, a vontade, desejo, sei lá o quê. Me lembrava de todas as palavras, as conversas, o jeito como ele me olhou no aquário, todas as vezes que sorriu, todas!
E talvez por isso não consegui controlar meus pés. Quando vi, eles já estavam se mexendo, se aproximando dele, parando a uma distância segura e até muito distante.
— Oi.
Eu sabia que ele tinha ouvido, mas mesmo assim, demorou um segundo a mais que o normal para virar a cabeça para mim.
— Oi.
Deu para ver o osso de seu maxilar se movendo, os olhos com um brilho intenso, destacando suas íris negras. Nunca tinha reparado neles direito até agora, porque sentia que eles podiam me devorar.
Esqueci o que eu tinha ido fazer ali.
— Já faz um tempo. — minha boca se mexeu para dizer. Tinha menos oxigênio que o normal nos meus pulmões.
Jaehyun assentiu, as mãos nos bolsos, o lábio em linha dura.
— É. Faz um tempo.
E nada. Mais nada. Eu não tinha ideia do que falar.
Eu tinha perguntas, mas fazê-las ali era no mínimo burrice. Até porque essas perguntas não seriam lançadas como uma brincadeira. “E aí, Yuno, você sumiu no fim da viagem. Onde você se meteu? Perdeu o Jungkook nadando pelado.”
“Descobri a brincadeirinha sua e do Dongmin. Haha, que engraçado, eu te confundi com ele.”
“Você beija bem pra cacete, meus parabéns. Tão bem que não consigo esquecer. Haha.”
Essas coisas não deveriam importar. Não na situação em que eu me encontrava. Não quando as coisas estavam… dando certo. Do jeito que eu pedi.
O cara que eu sempre gostei gostava de mim. O cara que eu sempre gostei me queria. Lee Dongmin me mandava mensagens todos os dias dizendo que estava contando as horas pra gente dar uns amassos.
Foi isso que eu pedi.
Então por que eu ainda estava ali, olhando para Jaehyun, e tendo uma certeza assustadora de que poderia estar errada?
Se ele estava vendo aquilo em mim, não reagiu. Mas também não se mexeu para se afastar ou qualquer outra coisa. Não conseguia saber o que ele estava pensando de jeito nenhum. Ele tinha voltado a ser a parede indiferente de sempre.
— Você… o que andou fazendo? — tentei puxar assunto, dando um mísero passo para o lado. O cheiro dele me atingiu já ali, arrepiando minha nuca.
Ele levantou os ombros de leve.
— O de sempre. Trabalhando. Trabalhando um pouco mais.
Assenti. Ele lentamente se virou para voltar a olhar o quadro.
Imitei ele.
— Você consegue saber o que eles querem dizer? — perguntei. Ele ficou em silêncio por alguns minutos.
— Mais ou menos. Não é uma coisa que exige alguma percepção extrassensorial pra se entender. Só tem que buscar se identificar.
Assenti como se entendesse. Na realidade, nunca me dei bem com obras de arte, ou livros sem divisão de parágrafos direito, ou poesias que rimavam e transformavam uma rejeição amorosa num Armageddon. Uma amiga da escola sempre dizia que eu parecia ser superficial demais, sempre categorizando lugares, pessoas ou sentimentos em cada bloquinho separado por área, buscando não ter surpresas com nada na vida, tentando ter algum tipo de controle fajuto. Talvez eu só não entendia ainda que, estudar na Academia Neeson seria provavelmente ainda mais insuportável se eu possuísse algo mais do que cinco sentidos. Categorizar pessoas foi o que me ajudou a chegar até o fim.
Mas fazer essa divisão era mais por mim do que por eles. Do que por qualquer pessoa. Eu não sabia prestar atenção nas pessoas desse jeito. Estava apenas, constantemente, tentando não trazer problemas para elas (que não fosse eu mesma, o próprio espelho quebrado).
Mas Jaehyun sabia. De algum modo, eu tinha certeza absoluta dos seus olhos escaneando a minha pele exposta do mesmo jeito que estava escaneando aquele quadro, roubando todas as informações possíveis dele.
Geralmente, isso me deixaria acuada. Mas nele, a coisa só me excitava.
— Você tá se identificando agora? — eu me sentia extremamente idiota, mas ainda precisava falar alguma coisa. — Com um… cara enfiando um punhal no peito enquanto segura uma caveira?
Jaehyun não me olhou, mas o vi engolir em seco.
— Um pouco. — um reflexo de sorrisinho passou por ele na velocidade da luz. — A parte do punhal é interessante.
— O suicídio é interessante?
— Pra algumas pessoas, sim. Pra outras, é desprezível. E outras vezes é só um ato. A pintura mostra ele segurando o punhal, mas a gente não sabe se foi ele que o colocou ali. Não dá pra saber se foi por fuga ou desespero. Ou só tristeza. — ele deu de ombros. Desejei que ele falasse a noite inteira. — Mas um suicídio, de qualquer maneira, nunca envolve só uma pessoa.
Virei para ele de perfil.
— Espero que esse papo mórbido não tenha relação com você.
— Eu sou sempre mórbido. — ele arqueou as duas sobrancelhas. — As pessoas dizem que eu sou um tédio.
— Aham. É claro.
Ele tirou uma das mãos do bolso e alisou o cabelo, sorrindo pequeno, sorrindo daquele jeito de quem estava se ordenando a não sorrir.
— Essas coisas são pura história. Histórias que só existem na cabeça de quem fez. Aquele dali, por exemplo. Um círculo colorido. Aquela parte da pintura que é separada pelo pontilhado representa a sociedade. Tá separando as minorias do restante. Mas no mundo de hoje, quem são essas minorias? Quando ele foi feito? Pode muito bem ser uma representação de um futuro que a gente nem chegou ainda.
— Como se lá na frente, os humanos fossem a minoria e o resto uma mistura de robôs e macacos?
Jaehyun olhou para mim de novo, e agora o sorriso aumentou. Isso, estava indo. Meu cérebro estava pipocando feliz.
A mão dele estava para fora do bolso. Não resisti em olhar para ela. O estômago embrulhou inteiro de desejo em tocá-la.
— O que você prefere? Robôs ou macacos? — perguntei.
— Honestamente, macacos são muito mais assustadores.
— Eu também prefiro ser escravizada pelo Elvis Presley de latão.
— Contanto que ele estivesse sempre usando uniforme de presidiário de Jailhouse Rock.
A risada explodiu de mim. Olhei para o lado e vi Jaehyun se controlando também, e percebi que tínhamos nos aproximado sem querer em algum momento, como aconteceu no aquário. Ele olhou e sorriu, sorriu…
E de repente, como se alguém o tivesse cutucado e avisado que ele precisava se comportar, esse sorriso foi sumindo até desaparecer.
Isso doeu um pouco.
— Eu vou… pegar uma bebida. — ele pensou na desculpa no último segundo, e meu estômago afundou.
— Você foi embora cedo. — soltei, me virando. — Em Jeju. Você simplesmente… foi embora.
Os traços dele se tornaram duros. Sempre achei Jaehyun sério, mas naquela hora ele estava simplesmente… gelado.
— Surgiu um problema. — respondeu ele. — Só dirigi algumas horas a mais.
— Problema? — minha voz quase falhou. Estava tentando manter as pernas firmes.
Ele não respondeu. Em algum momento do último mês, no meio daqueles dias confusos e automáticos em Jeju, eu sentia que… bom, passei a sentir que ele me responderia qualquer coisa que eu perguntasse. Que me contaria coisas.
Onde eu tava com a cabeça?
— É. Não importa agora.
— É, eu… — abri a boca, e a fechei quase imediatamente. — Sobre as lanternas, eu pensei…
— Não tem importância.
— Claro que tem.
— São só lanternas.
— Tem certeza?
Jaehyun fechou a cara. Não fazia ideia do que estava fazendo. Eu desprezava insistências inconvenientes com pessoas comuns (e eu tinha a política de não fazer coisas que desprezava). Jaehyun não era um cliente da Wren que eu precisava convencer a comprar ações. Mas quando vi, já estava fazendo, torcendo para que ele acabasse com a minha insônia.
Sei para onde todos os sinais apontavam, mas precisava saber se era aquilo com certeza. Se aquela lanterna significava pelo menos alguma das minhas teorias.
Ele moveu os olhos para lá e para cá, como se procurasse uma saída, mas nem ele teria coragem de fugir daquilo agora. Não sabia o que faria caso ele falasse que sim, era aquilo, sim, ele tinha sentimentos por mim, sentimentos que eu nunca notei, que cabiam em um “sempre” que me intrigava, e que sim, aquele beijo fazia parte de uma fantasia profunda que ele cultivava longe de tudo e todos.
Não conseguia imaginar isso. A imagem não se formava no meu cérebro. Mesmo assim, descobri um desejo enorme de poder imaginar.
— …
— !
Duas vozes praticamente se chocaram, a última mais alta, só que mesmo assim não consegui me virar. A voz de Jaehyun me fez ficar ali.
E daí, os braços enormes estavam passando pelos meus ombros, a muitos centímetros acima de mim.
— Ei, te mandei mensagem. Achei que fosse querer carona. — Dongmin balbuciou com um sorriso, me puxando para perto, fungando meu cabelo até deixar um beijo ali. Um beijo que não era nada comum entre nós.
Não antes de Jeju.
Virei para ele, com um sorrisinho.
— Achei que você estivesse no Japão.
— E achei que você conhecesse a Nellie. Dia de exposição, . Ela me obrigaria a deixar meu emprego mesmo se eu trabalhasse no Congresso. — disse ele, as mãos muito confortáveis em volta de mim, descendo para minha lombar. — E nem deu pra me irritar dessa vez, pra te falar a verdade.
— Por qu-
Parei de falar assim que vi seu sorrisinho sugestivo. A mão ainda estava ali em mim. E a gente tava se pegando.
Pisquei um monte de vezes, de repente sentindo vontade de vomitar.
Olhei para a frente e encontrei a coisa pior: o olhar de Jaehyun sobre nós dois, exclusivamente sobre aquela mão cheia de dedos em volta de mim.
— E aí, Yuno, gostei do cabelo. — Dongmin sorriu para ele. — Deve tá dando problema lá na agência, hein?
Jaehyun tentou sorrir, mas não teve muito sucesso.
— Você sabe que a tendência agora é cabelo grande.
— Tô sabendo. E loiro. Você curte cabelo loiro? — Dongmin se virou para mim. Só abri a boca e dei de ombros, incapaz de desviar os olhos.
Mas Jaehyun fez isso lindamente.
— Vou lá pegar a bebida. Divirtam-se.
E antes de sair, ele olhou uma última vez para mim, um olhar que me remeteu à Jeju e tudo aquilo que encheu minha cabeça.
E foi depois disso, exatamente disso, que eu não consegui mais.
Nunca consegui dar um nome oficial para o que eu tinha com Dongmin, mas achei que dizer “dar um tempo” explicaria tudo, e resolveria. Não tinha como ele não entender. Eu não sabia como deixar claro que estava sendo injusta com ele. Que precisava resolver algumas coisas sobre mim primeiro antes de seguir com aquilo. Gaguejei menos do que eu achei naquele carro no fim da noite, querendo desaparecer, despejando o conteúdo caótico da minha cabeça.
E a pergunta temida veio e ficou martelando no meu cérebro mais tarde: “Mas eu achei que você gostava de mim.”
Eu gosto, quis gritar. É claro que eu gostava dele, eu só não sabia o que isso significava mais.
As coisas estavam confusas. Viraram uma sopa de confusão a semana inteira, e quando o senhor Baker me chamou na sua sala, podia jurar que iria ser despedida ou que ele diria que eu devia me controlar em seja lá qual problema jovem eu estivesse passando.
Mas não, Baker nunca entenderia. Nem eu estava entendendo, aliás.
— Minha nossa, você tá muito encrencada. — declarou Nellie. — Por que não conta logo a verdade pro Dongmin?
— Mas que verdade? — exasperei, largando a bebida na mesa. — A verdade que enchi a paciência dele por causa de um beijo que, no final, acabou sendo em um dos seus melhores amigos? E que mesmo eu ficando alucinada com isso, tentei fingir que nunca aconteceu e passei a ficar com ele, mas não adiantou nada porque continuo pensando? Não dá, Nellie, é muita loucura! — escondi o rosto entre as mãos, e se eu cheguei ao nível de choramingar em plena mesa de bar, o álcool já estava fazendo efeito. — O cara que eu gosto também gosta de mim, e eu sei que deveria ficar nas nuvens com isso e achar que literalmente zerei a vida, mas eu não consigo, tá legal? Não sei explicar. Eu olho para ele e só consigo lembrar do beijo no quarto. Então não sei o que fazer. Dessa vez, o meu azar literalmente exagerou.
Nellie soltou um muxoxo antes de inclinar o corpo até colocar mais soju no meu copo. Aceitei de bom grado, mesmo que tivesse consciência que já estava passando do ponto. Tinha deixado claro para mim mesma que as noites eram feitas para dormir, mas meu corpo estava ignorando isso completamente naquela semana.
— Você sabe sim. Você tem que falar com o Yuno. — Nellie deu de ombros.
— Estou tentando, esqueceu? — inclinei o queixo para o celular jogado.
— Mensagens de texto são uma porcaria, , esses garotos mal têm tempo de pegar em um celular. E mesmo que tivessem, não é conveniente mandar um “olá, podemos conversar sobre o beijo que demos naquele dia? É que eu já sei que foi você e não outro cara, e isso está me enlouquecendo” e esperar que ele responda. Essas coisas acontecem cara a cara.
— Talvez pra você. — choraminguei porque sim, eu estava sendo uma covarde completa. Se Jaehyun tinha realmente visto meu beijo com Dongmin na praia, provavelmente tinha desistido de tudo e eu nem teria coragem de confirmar isso.
— É o seguinte: não vamos chorar hoje à noite, tudo bem? Aqui, bebe isso. — e mais cerveja encheu o meu copo, que ainda tinha soju, e aquela mistura era sempre tiro e queda para ressaca. — Vamos encher a cara e comprar um pterodátilo de pelúcia quando sair daqui, e amanhã, quando olhar para ele, você vai se lembrar do recado principal: falar-com-Yuno. Pessoalmente.
— Como vou falar com ele se vou estar no meu ofício de babá? — eu a desafio a me responder.
Nellie abriu os braços sobre a mesa naquela posição como se eu estivesse cega para o óbvio. Sua risada perplexa também fazia um barulho bastante audível naquele lugar minúsculo.
— Aô! As crianças me adoram, esqueceu disso?
— Não adoram, não.
Em resposta, ela simplesmente abanou uma mão no ar e encheu agora dois shots.
— Bom, essa é adolescente, não é? Posso ter mais sorte com essa espécie. — ela estalou a língua e passou uma das bebidas para mim, e eu tive certeza que teria que dormir com um saco de papelão em cima do meu cobertor. — A um acerto de contas.
Encarei o líquido, que parecia diferente do soju com cerveja habitual, mas sinceramente não queria saber qual substância de brinde tinha naquilo.
— E se ele não quiser falar comigo? — me entristeci uma última vez. Nellie ainda mantinha o copo para o alto.
— Você só vai saber quando tentar. — ela balançou os olhos. Tão logo ouvi o ruído de sua garganta, pedindo para que eu me apressasse, brindei com ela, mandando tudo para dentro. — Ah, e responda o Dongmin antes que ele comece a mandar mensagens pra mim. Você sabe que eu sou péssima em guardar segredo.
Bufei em desalento e bebi outra vez. O resultado dessa brincadeira amanhã não seria legal, mas não havia o que fazer quando sua cabeça estava desmoronando.
Ainda não sabia direito no que procurar um conflito de livre e espontânea vontade resultaria. Só sabia que precisava fazer isso. Só para que as luzes azuis do meu quarto voltassem a funcionar.
Sábado
19 de outubro
Seul
19 de outubro
Seul
Alguém podia ter me avisado da superlotação, mesmo na área VIP.
Também podiam ter falado do choro e da gritaria, dos empurrões e xingamentos, e que tudo isso viria de adolescentes de 15 anos que não estavam dispostas a se lembrarem da lei básica da Física de que dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
Eu teria repensado a oferta. Mesmo que aquilo que recebi do senhor Baker não pudesse ser considerado uma escolha.
Meus pés já estavam me matando com míseras três horas de evento. Depois do anoitecer, aquela arena podia muito bem ser o mundo particular de ladrõezinhos em formação, mesmo que fosse um show privado, então me sentar ou mexer em qualquer coisa no celular era arriscado. Nunca acreditei na eficácia de nenhuma segurança quando se lidava com tanta gente, era impossível.
Nellie não aguentou nem a metade da segunda apresentação sem beber, pedindo logo uma cerveja no copinho de plástico enquanto Psycho do Red Velvet estava no auge. Tentei fazer cara feia e dizer que a amarraria em uma das grades se ela não se comportasse e lembrasse que estávamos acompanhadas, mas a menina, Patricia, nem se deu ao trabalho de virar o rosto. O senhor Baker estava certo, ela estava ali única e exclusivamente para o show, e era mais tranquila do que pensei que seria.
Bem, é claro, se eu continuasse mantendo a garota abastecida com chocolate e refrigerante. Ah, e pilhas para suas dez lightsticks (queria muito estar brincando sobre essa parte).
Uma grande desvantagem de se estar na área VIP é que não existia a opção de bloquear as luzes do palco. Quando elas recaíam sobre o público, você recebia o maior golpe, perdendo sabe-se lá quantos décimos de visão, mas ainda carregando um peso privilegiado: os artistas olhariam primeiro para você, interagiriam primeiro com você e, caso a euforia da performance batesse de repente, jogariam pertences primeiro para você (Juyeon e sua regata suada que o diga. Achei que fosse acontecer um homicídio).
E a coisa ia ficando tremendamente pior quando, pouco a pouco, os grupos dos meus conhecidos amigos começaram a se apresentar.
Não sei como aconteceu, porque aquele palco era tão enorme e com tantas câmeras, holofotes e mais dezenas de coisas acontecendo para a transmissão na TV, e a estrutura era tão inescrutável que impedia até mesmo a passagem da luz do luar — que só me deixou saber que era noite depois de uma verificação minuciosa do céu quando as luzes superiores se apagaram para se preparar para a chegada de um novo grupo —, mas eles me viram. Quando o BTS entrou no palco e começou a seguir na batida de Fake Love, Jungkook me avistou e deu um aceno descarado para mim e Nellie.
Normalmente, não se contava por aí que você era amiga de idols. Claro, se você quisesse perder sua vida normal e ter sasaengs no seu pé como carrapatos, oferecendo milhões de dólares (dólares!) para saber qual a marca de pasta de dente favorita de algum dito cujo, então sim, a escolha era toda sua. Eu gostava da minha vida e da minha privacidade, Nellie igualmente, já que namorava um deles, então, quando Jungkook fez o favor de dar um tchau daquele jeito, torci para que fosse interpretado como uma reação involuntária de um artista cumprimentando seu público, mas suas sobrancelhas eram tão arqueadas e seus olhos tão direcionados a nós que temi o pior.
Foi desse ponto em diante que entendi completamente que o senhor Baker tinha aberto a boca para valer com Patricia.
— Então era verdade! — ela me sacudiu quase instantaneamente. — Você conhece mesmo eles! É amiga deles, vocês duas! Não acredito! Como eles são? O que gostam de comer? Vão me levar pra vê-los, não vão?
E finalmente conheci o significado de não ter mais paz.
Com isso, achei que eu teria o máximo de apoio para guiar meu cupom de promoção (vulgo Patricia Baker) ao backstage, mas quando Nellie saiu para, aparentemente, resolver as burocracias sobre nossa entrada e sumiu para sempre lá dentro um pouco depois da apresentação do Seventeen, eu sabia que ela estava tirando todas as casquinhas possíveis de Mingyu e se esqueceria de mim e meu trabalho de babá. Não fiquei tão brava. Se Patricia prometesse não arrancar nenhum dos meus membros, eu poderia aguentá-la até a última apresentação.
Quase mudei de ideia quando o próximo grupo entrou no palco.
O NCT 127 surgiu em sua entrada tipicamente colossal, forçando os olhos de todos a se fixarem na paleta verde-limão e nas roupas pretas de couro. A ribombada de Kick It já começava a encher toda a arena, e nem os gritos escandalosos de Patricia e das outras garotas foram o suficiente para me fazer focar em outra coisa que não fosse… nele.
Naquela noite, Yuno estava mais bonito do que todas as vezes em que já pensei que ele era bonito. Com um rosto intencionalmente feito para parecer um carinho afetuoso no cérebro, uma regalia por ter um par de córneas funcionando. Quase não consegui me manter normal ao lado de Patricia, mas em minha defesa, tenho certeza de que ela nem estava lembrando da minha existência desde que viu o Seventeen performar Left & Right.
Ele cantou, dançou e se movimentou em seu estado pleno de sorriso e simpatia. Percebi que sempre reparei nele de alguma forma nesses aspectos; dava para entender completamente o fascínio de uma população sobre a sua pessoa nessas horas, quando ele te mostrava tanto e, depois, no fim da euforia das luzes crepitantes e da chuva de papel prateado, se fechava novamente, como uma pérola na concha. Um mistério sem permissão de ser desvendado. Provavelmente, eu não tinha mesmo a menor noção da situação em que estava há três anos: tendo pequenas experiências únicas só de estar na presença de Jeong Jaehyun, sendo alvo de uma parcela da sua atenção, um objeto de interesse por aquele que detinha o de todos ao redor.
Era quase uma insanidade pensar que aquele cara deitava a cabeça no travesseiro e… pensava em mim. Sendo sua namorada, sua heroína, sendo sua.
Estava ficando pálida. Provavelmente, algum dos seguranças sairia do seu posto para perguntar se eu estava bem.
Não me juntei à euforia de Patricia durante as outras apresentações. Só fiquei ali, parada, esperando tudo acabar, tentando controlar a espiral do meu estômago girando, o gelo que não saía dali, a vontade louca de voltar no tempo.
E o momento que tanto corri tinha finalmente chegado.
Quando algum apresentador falava aos montes sobre patrocinadores e gritava agradecimentos, Patricia estava muito ocupada gritando em voz aguda sobre ser o melhor dia de sua vida e que soltaria fogos quando chegasse em casa, enquanto eu tentava estupidamente ligar para Nellie, a vaca que tinha literalmente me abandonado para adicionar mais um lugar à lista sórdida dela e Mingyu.
— O que aconteceu? — disse ela quando me atendeu, a voz explícitamente enrolada.
— Onde você está, cacete? Não podia esperar pra sumir? — não quis parecer tão grossa ou louca, mas Patricia começava a se acalmar, e isso significava que me faria a pergunta de novo, e eu já tinha sido avisada de que, se tivesse mentido para o seu pai sobre minhas amizades, as consequências seriam providenciadas.
É isso que se ganha quando a ganância fala mais alto.
Ouvi a respiração alta de Nellie ao mesmo tempo em que sua voz aumentou de volume.
— Eu tô exatamente aqui, . — e então, dedos longos cutucaram meus ombros e virei, dando de cara com ela ao mesmo tempo em que alguém da produção teve a brilhante ideia de soltar fogos, o que deixou o ar carregado de fumaça trêmula. Sorri aliviada com sua chegada, e ela estendeu os três crachás em verde neon, gritando animada: — Temos as entradas!
Patricia não deixou o aparecimento de Nellie passar despercebido. Vi sua boca abrir e fechar, aumentar e diminuir várias vezes. Olhando para os lados, Nellie se aproximou e passou a corda por sua cabeça, abaixando-se até sua altura para dizer:
— Entendeu, fofinha? Pronta pra conhecer uns idols?
— Eu não sei quanto meu pai está te pagando, mas dessa vez ele arrasou, é sério! Espero que não estejamos falidos depois disso!
Patricia apertou ainda mais o meu pulso, e fiquei preocupada de encontrar a marca de suas unhas em mim depois. A garota era o próprio significado de êxtase e não conseguia conter os murmúrios e o queixo caído desde que deu o primeiro passo no pátio de tijolos avermelhados a caminho dos camarins.
Eu entendia um pouco ela. A sensação de autoridade que se tinha por fazer o caminho da plateia para os bastidores era inigualável. Fiquei de um jeito bem parecido quando Nellie me arrastou para isso pela primeira vez há três anos, mesmo que naquela época eu estivesse tremendo bem menos.
— Ele pagou o suficiente. — respondi para ela com um sorriso fino, porque aquilo com certeza seria pago de algum jeito.
— Alguém viu a gente entrar? Será que preciso trancar o meu perfil do Twitter? Mas ainda não postei nenhuma foto, o que meus seguidores vão pensar? Eu disse que estaria aqui, mas não tenho material! — Patricia freou os passos por um segundo para se virar em minha direção. — Não posso decepcionar os fandoms, você me entende, né?
Desviei os olhos direto para Nellie em um pedido de socorro. Ela me encarou de volta, levantando os ombros como quem dizia: “de quem foi a ideia de aceitar esse projeto-promoção mesmo?”.
Passei uma das mãos pelas costas de Patricia e voltei a guiá-la pelo corredor, que não demoraria muito a ficar congestionado.
— Fica tranquila, Patricia. Você vai poder tirar quantas fotos quiser. Já preparou tudo? — apontei para seu outro braço, onde uma bolsa estava pendurada na curva de seu cotovelo e guardava um emaranhado de lightsticks, faixas e cartazes que tomariam metros de tamanho. Ela fez um aceno primoroso com a cabeça. — Então, só tenta se manter de pé até lá.
Nellie riu alto e, em pouco tempo, estávamos curvando em um corredor um pouco mais estreito, com menos portas de cada lado e araras de roupas escuras passeando junto com pessoas carregando caixas com garrafas de água sem se preocupar com três garotas estranhas passando pelo batente.
— ! — o grito de Jungkook atravessou o saguão inteiro. Em um segundo, eu tinha o corpo erguido para cima em um abraço de urso, e o mesmo acontecia com Nellie logo depois. Nunca estive tão agradecida por estar com minha calça de tecido. — Eu sabia que era vocês na plateia. Viu? Eu disse que não tava precisando de óculos. — ele revezou o olhar entre nós duas. — Aliás, por que estavam na plateia? Por que não assistiram o show daqui de dentro, como sempre?
Houve uma pausa entre o momento que Nellie deu de ombros e andou livremente até uma das dezenas de garrafas de água paradas em cima da penteadeira, e entre o momento em que Jungkook percebeu a terceira presença que nos acompanhava.
— Hoje eu não estava exatamente de folga. — expliquei, e puxei a garotinha para mais perto de mim de novo. — Patricia, esse é o-
— Jeon Jungkook! Minha nossa, minha nossa! — ela explodiu de repente, fazendo Jungkook tremer os ombros de susto e Nellie se virar de repente. Escapando de minhas mãos, Patricia se aproximou dele, esticando os braços para tocá-lo, mas recuando logo em seguida. — Não acredito! É a superfície de Jeon Jungkook, oh meu Deus! Você é tão mais lindo pessoalmente, como é possível?
Nellie segurou uma respiração pesada, que se pareceu muito com uma risada, enquanto dava passos para perto de nós.
— E é por isso que viramos pessoas comuns. — disse, apontando para a adolescente eufórica de blusão solto e saia longa e rodada em nossa frente.
Subitamente, tive medo que ela se ajoelhasse ou qualquer coisa próxima disso.
Mas quem se abaixou foi Jungkook, flexionando os joelhos para ficar na mesma altura que ela, acariciando levemente seus ombros.
— Ei, e aí? Quem é nossa nova amiga?
Esperei dois segundos e me apressei em responder antes que ela não conseguisse.
— Essa é a Patricia, filha do meu chefe. Tô tentando conseguir um aumento, você entende? — estreitei os olhos direto para ele, que arqueou as sobrancelhas e levantou os belos dedos em formato de OK.
— Claro. E eu deveria te ajudar sendo muito simpático com a nossa amiga, não é? — ironizou. Eu apenas levantei um ombro, pedindo implicitamente que fizesse seu trabalho. — Então, Patricia, o que achou do show? O oppa dançou bem?
— Sim! Sim, sim! — os pés de Patricia se chacoalharam com rapidez, o que me assustou de novo, porque antes ela parecia tão imóvel quanto aquela arara de roupas e tão pálida quanto aquelas luzes. — Vocês foram tão… ah, merda, o que acha que eu vou falar? Ah, meu Deus, não conta pro meu pai que eu falei “merda”. Mas vocês foram incríveis! Principalmente na abertura! Por favor, diz pro V que ele fica ótimo naquela roupa preta.
— É claro, vou dizer. Mas e eu-
— E diga ao Namjoon que a gente sempre ama vê-lo de center. Ele é tão alto como parece de longe? E aquele risco na sobrancelha é de verdade? Meu pai não pode saber que eu gosto de riscos na sobrancelha, . — ela quase perdeu o fôlego ao falar de Namjoon. Nellie sufocou uma gargalhada. Jungkook entortou o sorriso, fechando ainda mais os dentes e então disse:
— Claro, o Namjoon é incrível, lindinha. Mas e o oppa-
— E diga ao Suga que seus raps são totalmente eletrizantes e necessários. Pergunta pra qualquer um na internet e vão dizer que ele é o melhor da geração. Ele e o Namjoon…
— Claro, vou dizer tudo isso, eles vão adorar, mas e eu…
— Que tal uma foto? — interrompi a conversa antes que Jungkook começasse a chorar. Ele ergueu os olhos para o meu rosto de um jeito indistinto e indiquei com as sobrancelhas para que ele desistisse. — Temos mais camarins pra passar, então podemos adiantar essa parte?
Sem objeções — pelo menos ditas —, Jungkook se levantou e se posicionou ao lado de Patricia, colocando um sorriso no rosto como se não estivesse no ponto de aborrecimento tristonho há poucos segundos atrás.
Quando Patricia pegou o celular da minha mão para verificar a foto, o fôlego lhe faltou novamente, e ela lutou mais uma vez para não pular e abraçar a cintura de Jungkook. Para uma garotinha de 14 anos totalmente alucinada, até que ela estava conseguindo se segurar muito bem.
— Obrigada! Eu vou ganhar milhares de seguidores depois disso.
Não demorou muito para algum staff surgir na porta e gesticular alguma coisa que fez Jungkook prontamente se despedir e deixar a sala, deixando Patricia ainda suspirando e, se eu não estivesse vendo coisas, encarando o contorno de sua cintura fina.
Bom, ela era uma garota, afinal. Que mal tinha dar uma olhadinha?
Antes que eu ou ela disséssemos qualquer outra coisa, mais um cara vestido com roupas brilhantes e in-ears nos ouvidos entrou pela porta, distraído com os olhos no celular e o cabelo ainda grudando na testa pela última apresentação.
— Nellie, que mensagens são-
Ele parou ao me ver. E se existisse algo mais forte e cortante do que gelo passeando pela espinha, com certeza foi o que eu senti.
— Oh. — ouvi o sussurro petrificado de Patricia antes que eu fosse esmagada por mais um abraço corpulento daquele dia.
— Caramba, já tava achando que você tinha preferido ficar no setor de buffet jogando baralho com um garçom. — Dongmin falou na curva do meu pescoço, o que era um erro, principalmente da forma como o gesto se parecia para quem olhava de fora. Meu corpo inteiro estava preso naqueles braços, e, mesmo que eu estivesse abraçando-o de volta, ainda me senti um pouco constrangida pelo enlace nada convencional, e principalmente por tudo que ele escondia: minha vergonha, minha covardia e muitas palavras não ditas.
Se eu soubesse dessa história do buffet, eu teria preferido perder uns bons minutos estudando cartas com naipe de copas do que ali, representando a boa moça do chefe.
Quando Dongmin se afastou, exibiu um sorrisinho tímido e limpou a garganta, vendo meu estado de completo embaraço.
— Eu não sabia que você viria. Tentei mandar mensagens, mas você não me respondeu.
Sua voz também era tomada de acanhamento, e eu não soube o que responder. Não soube nem se iria responder, não ali, não agora. E dei graças a Deus porque, antes que eu pudesse emitir qualquer ruído, outra pessoa falou na frente. Ou melhor, gaguejou:
— Minha nossa! Meu. Deus! É o E-E-E-E…
— Ih, lá vamos nós. — Nellie revirou os olhos, e tenho certeza que pensou o mesmo que eu: espero que não precise usar essa água para reanimar Patricia caso caísse dura no chão.
Quando ele se virou na direção do som e olhou mais de perto, viu uma garotinha se aproximando aos tropeços, o dedo indicador trêmulo apontado para nós dois enquanto dizia em voz aguda:
— Cha Eunwoo acabou de dizer que mandou uma mensagem pra você?!
Pois é. Acredito que ela não tenha conhecimento nenhum de que Cha Eunwoo também era um cliente de seu pai, sob a alcunha de Lee Dongmin, e eu nem julgaria o senhor Baker por isso. Patricia tinha todos os requisitos para se tornar uma sasaeng: rica e obcecada.
E obviamente, ela nem sonhava no conflito existente de amor e amizade entre eu e o face card da nação.
Dongmin vincou a testa, mas colocou um belo sorriso profissional no rosto, e me apressei em puxar a garota para mais perto novamente. Acho que ela não conseguiria fazer isso com os olhos tão fora de foco.
— Essa aqui é a Patricia, uma fã muito especial. É a filha do senhor Baker lá do escritório, lembra? Meu chefe. — frisei a palavra com as sobrancelhas erguidas, o tipo de comunicação que ele entendia muito bem. Quase não suportei ver seu olhar de dúvida até que entendesse o que eu dizia: a promoção, lembra? O aumento! Meu ar-condicionado novo e meu novo papel de parede do banheiro, sei que você se lembra…
— Ah, é! — ele finalmente entendeu, sorrindo lindamente enquanto imitava a pose de Jungkook: joelhos flexionados na altura da menininha. — E aí, Patricia? Gostou do show?
Patricia respirou fundo de um modo estranho, mas logo se recuperou a tempo de detonar as cordas vocais de novo.
— Sim! Mas é claro! Vocês são sempre fabulosos, marcantes, tão bonitos de azul. Por favor, diz pro Jinjin o quanto ele é extraordinário, e ao Sanha que o cabelo dele estava maravilhoso, e diga ao MJ que cantou tão bem! Minha nossa, será que eles poderiam curtir uma foto minha no instagram?
Cocei a garganta quando percebi que ela avançava para perto dele a ponto de tocar em seus ombros, e eu não tinha certeza como ele deveria lidar com isso, mas Dongmin apenas riu, e riu de verdade, sem toda aquela pose ofendida de Jungkook que o deixava sem expressão ao não receber toda a atenção do ambiente.
— É claro, vou garantir que todos eles fiquem sabendo. Mas além de uma curtida, posso te oferecer uma foto também? — seus ombros se levantaram em divertimento. A cabeça de Patricia assentiu com tanta força que fiquei preocupada em ter de pegá-la de volta caso rolasse por aí.
— S-sim, claro! ! — ela estendeu o celular para qualquer direção, sem exatamente me olhar. Estava tão agitada que quase o deixou cair. Peguei o aparelho enquanto ela se colocava ao lado de Dongmin, agora curvando apenas as costas enquanto fazia o sinal de coração com os dois dedos, totalmente espontâneo ou demonstrando isso ao máximo.
E ele era exatamente assim até mesmo quando os flashes se desligavam. Sempre admirei isso em Dongmin com todas as forças. A maioria dos idols, depois que observei bastante o meio, adquiriam um olhar vazio e sobrancelhas sem forma assim que saíam dos holofotes. Na maioria das vezes, eu não julgava. Eles deviam passar por tantas coisas não contadas ou mostradas que se tornavam cada vez mais humanos ordinários ao meu ver, cheios de problemas internos que a mídia não estava interessada em saber.
Tirei várias fotos porque Patricia não conseguia fazer uma cara menos assustada ou chocada, e quando finalmente a entreguei o celular de novo, ouvi mais um grito.
— Caramba, você é mesmo igual na foto. — ela abraçou o celular contra o peito, olhando pra ele com os olhos brilhando. Dongmin deu um sorriso de canto, acariciando levemente sua cabeça.
— Obrigado, você é muito fofa, Patricia. Espero que nos encontremos de novo.
Ela paralisou totalmente com aquelas mãos e se virou para mim, a boca totalmente aberta em um susto.
— Acho que vou desmaiar. — murmurou. Soltei uma risada descontraída. Nellie bufou do canto, largando a garrafa na penteadeira.
— Por favor, Lee, não a faça desmaiar, precisamos levá-la pra casa.
Dongmin riu alto quando seu telefone apitou mais uma vez, e ele leu a mensagem por dois segundos antes de guardá-lo de volta no bolso.
— Então… Acho que preciso ir. Tenho que chegar na Fantagio antes das dez. — explicou, e eu apenas assenti com um singelo sorriso, verdadeiramente agradecida por toda sua simpatia com Patricia.
Ele continuou parado, me olhando, como se estivesse esperando por informações, ou qualquer coisa que explicasse o meu sumiço repentino da última semana depois da nossa conversa difícil no carro. Bem, ele não teria nada daquilo, mesmo se só tivéssemos nós dois na cidade inteira.
— Claro, vai lá. Foi bom te ver. — o tom saiu mais formal do que o costume, mas eu não conseguia fingir. As coisas não estavam normais. Pelo menos não por enquanto.
— Tudo bem, eu… Eu te ligo. — foi um aviso. Um comunicado. Algo que soava também como um pedido, como um ‘vou te ligar, então seja gentil e atenda desta vez, ok? Precisamos conversar e você sabe disso’. Eu sabia, eu sabia! Mas no momento, era como se eu e Dongmin fôssemos duas linhas neutras e retas, paralelas um ao outro, e não duas linhas que se entrelaçavam e não se desgrudavam como antes.
Por fim, ele se virou para Patricia, dando um último sorriso.
— Foi um prazer te conhecer, Patricia. Espero que faça uma boa propaganda da minha amiga aqui pro seu pai. Ela é uma garota e tanto. — e então, com um último aceno de cabeça, ele virou e se retirou rapidamente.
Olhei para Nellie. Ela encarou a cena toda de maneira clínica, e tenho certeza que um milhão de possibilidades giraram no sentido horário dentro do seu cérebro, um roteiro inteiro muito melhor do que aquilo que eu acabei de fazer ou falar na presença do meu ex-peguete, coisas que ela jogaria na minha cara na nossa próxima noite de bebedeira, mas no momento, fiquei feliz por ela só descolar as costas da parede e dizer:
— Próxima parada, madames!
Ela pegou na mão de uma Patricia ainda trêmula e suspirante e levou-a para fora, me deixando para trás alguns minutos enquanto eu me decidia se ainda tinha todo o discurso pronto na ponta da língua ou se precisaria de alguém para traduzi-lo para mim, porque meu coração já começava a saltar pela boca e eu precisava dela para falar.
Eu só esperava conseguir dizer o que precisava dizer.
Mingyu ofereceu suco de uva e cranberry depois de cinco minutos em que se apresentou para Patricia.
Aparentemente, os outros membros do Seventeen entravam em um estado imerso de meditação depois das apresentações. Mingyu foi o que mais ficou e jogou conversa fora, mas para quem conhecia, aquela era sua personalidade de sempre. Pelo menos foi por isso que Nellie tinha se apaixonado por ele, além de outras características impronunciáveis.
De qualquer forma, não ficamos muito tempo ali, mesmo que eu quisesse muito porque sabia perfeitamente do próximo destino. Não parecia que Nellie estava se lembrando disso, ou simplesmente fingia não saber para não me deixar mais nervosa, mas a verdade é que eu não ligaria de continuar ali e interromper mais momentos de sossego de outros membros só para adiar o próximo encontro.
É claro que não deu certo e ela já me arrastava para o outro camarim.
Esse em questão era mais longe, quase no fim do corredor. Não se parecia muito com o dos outros, o que me surpreendeu porque jurei que a única cabine diferentona que veria naquele lugar fosse do BTS, mas o NCT 127 também tinha uma boa distribuição. Eles eram mais silenciosos do que me lembrava, e menos bagunceiros depois de uma grande apresentação, em relação aos outros. Não se ouvia nenhum ruído quando Nellie bateu na porta levemente e quando gritaram que poderíamos entrar, demos de cara com um rapaz muito alto com uma tatuagem no ombro. Johnny sorriu com uma simpatia escrachada e fui obrigada a sentir de novo as unhas enormes de Patricia se cravarem na palma da minha mão.
Agora ela parecia mais do que pálida, parecia roxa. Eu precisaria fazer um ritual de ressuscitação pra essa garota até o fim dessa tour.
Com algumas palavras rápidas para ele, Nellie se adiantou para dentro enquanto o cara simplesmente saiu pelos corredores como um foguete. Quando entramos, entendi o silêncio repentino: estava praticamente vazio, com alguns poucos staffs sussurrando entre si, mexendo em araras e com um cara ainda com as roupas da apresentação, um conjunto preto e couro se olhando no espelho enquanto retirava fones e bebia um grande gole de água.
Um cara que estava debaixo das luzes fortes e me deu uma visão tão completa de seu rosto que senti que Patricia teria de fazer o processo de reanimação em mim. E não sei como aquela sala podia estar em tamanho silêncio quando meu coração batia tão forte como um sino de igreja.
— Pff. Fala sério, nem minha mãe se embeleza tanto assim no espelho. — Nellie comentou com uma piada, forçando o olhar de Jaehyun para a porta. Ele nos encarou imediatamente através do espelho. E quando me olhou, senti todo o meu joelho tremer, e minha pressão desabar em alguns números.
Não sei interpretar o que vi naquele olhar. Surpresa? Frustração? Irritação?
Provavelmente, Jaehyun não veria nada demais na minha presença se eu não tivesse dado com a língua nos dentes no dia exposição. Se ele estava louco para se esquecer da situação em Jeju, eu ficar aparecendo na sua frente não ia ajudar muito.
Mas estava tentando deixar de ser uma covarde. E por mais que o olhar dele tenha me desestabilizado, eu já estava ali.
— A imagem da sua mãe não está à venda há um bom tempo, Yohn, então por que iria se preocupar com isso? — ele disse afiado, mas em um tom divertido que arrancou uma risada de Nellie. Quando se virou para mim, vi sua glote descer e subir quando engoliu em seco e murmurou, numa voz baixa e pesada: — .
Assenti levemente com a cabeça, dando um sorriso de canto. Não estava certa de quais eram as regras nessa situação. Estava pronta para puxar Patricia de novo e acabar logo com isso, quando ela falou primeiro:
— Me belisque. — sua voz era distante, completamente petrificada, mais petrificada do que os outros. — Oh, Deus, por favor, me diga que estou sonhando.
Franzi o cenho diante da reação. A mão dela estava suando contra a minha e Jaehyun acompanhou o movimento, encarando a garotinha com confusão cômica. Nellie estalou a língua, balançando os cachos loiros.
— Acho que agora ela pifou de vez. — e então, andou até a mesa grande de comida e bebida e afanou alguns petiscos que ainda não tinham sido afanados, é claro. — Melhor pegar um livro em latim e perguntar quem está dentro desse corpo agora, porque estou preocupada.
Estreitei os olhos na direção dela. Jaehyun, como sempre, pareceu entender o recado bem rápido e se aproximou, abaixando-se na altura da garota, como todos os outros, curvando menos o pescoço do que Mingyu.
— A quem devo a honra da visita? — perguntou ele de um jeito formal, mas muito, muito natural. Patricia abriu a boca para responder, mas nada saiu, e comecei a me preocupar seriamente de ela estar tendo um troço dessa vez.
Depois de quase um minuto sem resposta, me abaixei também, passando o braço por seus ombros nas laterais e falando só pra ela:
— Patricia, ele perguntou o seu nome. Vai deixar que ele pense que você não tem nenhum? Fala com ele. — disse em seu ouvido, mas de um modo que todos escutassem. Quando olhei para ele na mesma direção, percebi que a ponta de nossos joelhos se tocaram e senti as bochechas corarem imediatamente.
— M-meu nome… Sou a Patricia! Patricia Baker. — ela respondeu, mas não era a voz dela. Era algo mais profundo e distante, totalmente impactado.
Jaehyun assentiu, passando uma língua levemente nos lábios quando desviou o rosto para arrumar o cabelo e aquilo foi tão legal que precisei me concentrar para não ficar igual a Patricia. Me levantei rapidamente, sentindo um pequeno calafrio desagradável subir pelos meus braços, aquele tipo de coisa que me faria passar uma vergonha desnecessária na frente dele.
— Patricia. Bonito nome. O que achou do festival?
Finalmente, algo estalou em algum lugar da cabeça de Patricia e ela voltou a ficar elétrica quando respondeu:
— Maravilhoso! Tremendamente espetacular! Não consigo explicar o quanto você estava bonito, e dançou tão, mas tão bem… Não consegui tirar a coreografia da cabeça. Suas partes em Bring the Noize e Focus são impecáveis, não sei dizer qual delas é a minha favorita. E tem Kick It, e o clássico Firetruck, me senti em 2017 de novo!
Nellie deu um silvo, mastigando alto o que parecia ser salgadinhos apimentados. Não me virei para saber que ela devia estar rindo, ou se segurando muito para não fazer isso.
— É mesmo? Que bom, fico feliz, todos os caras trabalham duro pra ter esse resultado, então é uma gentileza sua reconhecer. Tem alguma coisa que você queira que eles…
— Tenho todos os álbuns desde 2016 e coleciono todos os seus cards, Jaehyun! — Patricia o interrompeu em um impulso, as duas mãos voltadas para o meio do peito. — Tenho 6 pôsteres onde destaco seu rosto e minha nossa, vou em todos os shows e fansings, mas ver você de perto… socorro, vou começar a chorar. — e ela realmente começou a fazer uma careta de choro, me desesperando por um momento, mas logo se recompôs quando Jaehyun acariciou a lateral de seus ombros. Ele parecia muito calmo e tranquilo diante desse tipo de surto.
— Obrigado, Patricia, isso me deixa muito feliz.
— Posso te dar um abraço? — ela o interrompeu de novo, e agora eu mesma girei o corpo para olhá-la com surpresa.
— Patricia…
— Claro. — Jaehyun respondeu imediatamente, se movendo para mais perto. — Não tem problema.
Patricia parou por alguns longos segundos até conseguir andar mais um passo e passar os braços pelos ombros de Jaehyun, recebendo um aperto delicado em volta de suas costas. Por um momento, tive certeza de que a veria chorando, não apenas agora, mas por todo o trajeto de carro pra casa, na parada do sorvete, no estacionamento, tudo. Eram os frutos que aquele simples abraço renderia na menina.
Quando se afastaram, Jaehyun logo perguntou:
— Aceita tirar uma selfie comigo?
— Por favor! — ela bateu palminhas e eu já estava em prontidão. Peguei o celular enquanto ela se posicionava ao lado dele e bati várias fotos, entregando-a logo em seguida, que encarou a tela por mais tempo e suspirou explicitamente por mais tempo ainda. Pelo menos eu estava disfarçando. — Essa eu não vou postar. Vou enquadrar! Vou guardar só pra mim! Pode autografar minha lightstick?
— É pra já.
Ela puxou o objeto de dentro da bolsa nos braços, já junto com uma caneta piloto. Jaehyun assinou em um ponto apertado que quase escapava do meu campo de visão e voltou a devolvê-la para Patricia, que deu mais alguns pulinhos de alegria.
— Tem mais alguma coisa que posso fazer por você?
Ela se surpreendeu com a pergunta e, pela forma como abriu e fechou a boca várias vezes, não sabia o que responder. Quando finalmente falou, seu sorrisinho foi meigo e sua cabeça balançou em negação.
— Acho que não quero mais nada. Só tenho uma pergunta… Você disse no fansign do mês passado que estava preparando uma música autoral nova, um solo. Quando pretende lançá-la?
A leveza em torno dos olhos de Jaehyun de repente se tornaram duras, e jurei ter recebido um olhar de relance rápido, tão rápido que achei que estava delirando e, no momento seguinte, ele estava de pé, rindo pesadamente com uma rouquidão que não estava ali antes.
— Na verdade, ela ainda não tá pronta. E não sei quando ela poderia ser lançada. Doyoung disse que parece uma canção de ninar.
Patricia riu.
— Tipo Try Again? Não que ela seja uma canção de ninar. Se for, é uma canção de ninar que ouvi inúmeras vezes e não cansa nunca.
Eu também, suspirei comigo mesma.
— É, pode-se dizer que sim. Só mais… confusa, eu acho. De qualquer forma, você vai esperar por isso, não vai, Patricia?
Ela se colocou na ponta dos pés, agarrando a lightstick enquanto abria um enorme sorriso:
— Vou! Claro que vou! Esperaria até se você fosse virar um cantor de country. Nada contra música country. — Patricia olhou para mim e Nellie de repente. — Na verdade, eu e todas as outras Valentines já começamos a criar teorias.
Jaehyun riu, e desviei os olhos para a outra extremidade da sala, direto para Nellie, que agora fazia uma careta enquanto bebia um líquido que parecia uma poça de água escura. “Ela acabou de nos chamar de caipiras?”, o olhar dela disse.
— Eu que agradeço, Patricia. Na próxima live faz um comentário, vou fazer questão de dar um olá só pra você.
O rosto de Patricia apagou e acendeu em um recorde de tempo e, em seguida, eu tinha a cintura agarrada por aqueles braços e uma garota fungando no meu quadril, travando o queixo na minha barriga enquanto me olhava de baixo.
— Obrigada por isso, ! Vou mandar meu pai te dar quantos aumentos quiser! Tudo que você quiser! Hoje é o dia mais feliz da minha vida até o show do mês que vem!
Olhei para Jaehyun com uma risada contida enquanto fazia um mísero carinho nos cabelos de Patricia, que eu ainda não acreditava que estava em prantos de verdade. Ele me lançou um olhar simpático, e menos vazio do que antes.
— Não precisa agradecer, Patricia. Agora…
— Tudo bem, garotinha, tá na hora da gente começar a ir embora. — a voz de Nellie rasgou a minha, e suas sapatilhas bateram com força no piso até nos alcançar, puxando Patricia para perto dela, que secava os olhos com força. — Mas antes posso te levar na administração pra roubarmos um calendário do evento, que tal?
— Mas e o Yugyeom… — Patricia choramingou, e eu tinha até me esquecido que era a quarta vez que ela perguntava dele. Nellie deu um sorriso amarelo e começou a guiá-la para fora.
— O grupo dele saiu da empresa, não se lembra? Longa história, podemos falar disso no caminho se preferir… — ela arqueou as costas por um momento perto do batente e se virou para mim, fazendo um sinal de OK com os dedos na cara dura e finalmente se retirou, me deixando sozinha com Jaehyun.
A sensação do gelo na espinha voltou com tudo.
Talvez eu poderia inventar uma emergência e sair correndo?
Não seja covarde, não seja covarde, não seja covarde, caramba!
Ao me virar, pude ver os olhos dele brilhando em minha direção, tão agitados como os meus, mas eu poderia estar equivocada. Sua agitação não se tratava do mesmo motivo que o meu. Nem sei como ele reagiria ao meu motivo.
O silêncio constrangedor que se instalou por um minuto pareceram horas, e me dei conta de que precisava falar, nem que fosse a primeira coisa que vinha à minha cabeça.
E a primeira coisa era:
— Oi.
Sábado
19 de outubro
Seul
19 de outubro
Seul
Quando cheguei aqui, na enorme estrutura acústica e luminosa da parte interna de um dos maiores estádios do sul da cidade, sabia que estava diante de um monumento privilegiado em todo o continente. Grande, espaçoso, super bem climatizado, organizado e seguro contra qualquer sasaeng de poder aquisitivo mediano que pudesse descobrir sem querer alguma abertura nas paredes e causar estragos à imagens de celebridades diversas.
Então, como eu poderia estar sentindo espasmos tão violentos no peito e uma sensação desconfortável na garganta dentro de um ambiente de pelo menos cinquenta metros quadrados, como se estivesse imprensada em uma lata de sardinha?
Principalmente porque só havia eu e um lindo modelo da Prada sozinhos na sala.
Aquele primeiro “oi” ecoou dezenas de vezes no ar, e daí vinha a reação desproporcional da minha glote. Mal respirei de verdade até ele piscar várias vezes e finalmente soltar um:
— Oi.
Não ajudou em nada. Eu ainda estava sentindo o desespero por sair daquela sala tomando conta de tudo. Algo totalmente irracional, mas com um fundo de verdade: não me sentia pronta para ter qualquer conversa importante que não me prometesse respostas que eu queria.
Mas Jeong Yuno não jogava esse joguinho. Qualquer aspecto do cara continuava sendo uma incógnita de Black-Scholes.
Tecnicamente, era a minha vez de falar, mas nada saía da minha boca, o que proliferava ainda mais aquele silêncio esmagador que deixava tudo desconfortável. Como eu não conseguiria ir direto ao assunto, limpei a garganta e tentei dizer:
— É... desculpa por ela. Não fui informada que você era o ultimate bias. — ri engasgada, me referindo à Patricia e seu esplendor diante dele. Um que eu jamais julgaria.
Ele fez um indício de sorriso, mas passou em um piscar de olhos.
— Tá tudo bem. É legal conhecer a galera assim, sem tanta burocracia. — ele tentou soar casual, mas não foi o suficiente para abater meu nervosismo e, assim, aquele silêncio voltou com força total. Minha cabeça estava pipocando tanto que mal ouvi quando ele disse, em voz mais rouca: — Não sabia que você viria.
Pisquei algumas vezes.
— Eu não ia. Quer dizer, meu chefe me jogou nessa função de babá, e eu queria ter dito não, mas… bom, não preciso te mostrar os dados estatísticos dos casos de chantagens no mundo corporativo, mas você deve imaginar. Talvez eu receba uma boa notícia na segunda-feira. — dei de ombros, e ele continuou impassível. Limpei a garganta. — Érr, eu tinha que trazê-la aqui. Não foi uma desculpa pra te ver ou coisa assim.
Falei tão baixo que dava para duvidar que ele tivesse me ouvido de primeira, mas a forma como seu maxilar trincou, deixando a pele branca ainda mais branca e um leve rubor no alto das bochechas, eu soube que seu corpo inteiro estava em estado de alerta.
Alguma coisa líquida se formou e despencou bem no fundo do meu estômago. Yuno ficou tão lindo naquela hora que tive vontade de me asfixiar num travesseiro por não ter dado a ideia de passar naquele camarim primeiro antes de ver os outros garotos, só pela mera ideia de ainda vê-lo com o suor brilhando na testa e algumas gotinhas escorrendo pelo peito, obrigando-o a abrir alguns botões do colete de couro…
Meu Deus, .
Ele logo se empertigou e voltou ao normal, apoiando uma das mãos na penteadeira.
— Não achei que fosse uma desculpa. Você nunca precisou disso.
Mordi os lábios, agora sendo a pessoa com as bochechas queimando. Na minha memória, Yuno sempre teve aquele tom de voz rústico que obrigaria até mesmo um surdo a se virar para olhá-lo. Era uma coisa que somente ele poderia fazer, e naquela hora, percebi que nunca tinha trazido aquela discussão sobre sua singularidade para o meu cérebro antes. E agora, o filme que ele estava inventando de passar, desde a primeira vez que o vi até aquele momento do agora, estava sendo minimamente desconfortável… para o meu ventre.
MEU DEUS, JULIA!
— Hum… E como vai você? Já faz um tempo.
Foi a coisa mais inteligente que eu consegui pensar em dizer. Mesmo que fosse um repeteco da mesma introdução que tive com ele no museu, a expressão no seu rosto foi tragicamente parecida. Algo como: estou engolindo um palavrão pra não te falar como realmente estou, porque sou educado demais pra isso.
— Tá tudo bem. — ele desviou os olhos ao responder. — Álbum novo, trabalho pesado, muito soju de madrugada. As mesmas coisas de sempre.
— Considerando a sincronia no palco, virar umas noites no estúdio de dança anda rendendo ótimos resultados.
— O Taeyong ficou bastante competitivo ultimamente. Diz que quer levar o Daesang no MAMA.
— Vocês já deviam ter ganhado.
— Eu sei, mas estamos na Coreia, você sabe o que isso significa.
Eu sabia, por isso fiquei em silêncio. Sabia disso desde que me sentei naquele banco rachado e laranja da lanchonete de esquina com Nellie no meu primeiro trimestre na cidade e assisti ao festival por uma tela de vinte polegadas com as bordas engorduradas e bebendo cerveja aguada. Sabia porque já conhecia Lee Dongmin e, consequentemente, sua alcunha de Cha Eunwoo, que por pouco não estava ali sentado na cadeira à nossa frente daquele grande dia (se não fossem os milhares de contratos que seriam quebrados por conta disso), já que preferia se enfiar num cubículo de alvará duvidoso nos becos de Euljiro do que ir fazer média em uma premiação que já estava decidida há meses, independentemente dos números reais de vendas e desempenho inovador de outros grupos.
Era um grande esforço jogado no lixo na maioria das vezes — e por isso ele preferia a atuação.
Mas consegui enxergar no rosto de Jaehyun que ele não dava a mínima para o MAMA, ou qualquer outra coisa extravagante usada para rotular alguém de “melhor”. O resmungo era por outro motivo, uma certa pressa que eu estava tentando não reparar. Mas já era. Ele se adiantou:
— Foi bom ver você. E Nellie. Vocês duas. — ele deu passos não tão discretos para trás, recolhendo a mão para o bolso. — Mas eu tenho que terminar aqui e ir pra van, eles estão esperan-
— Yuno. — cortei. — Eu sei o que aconteceu naquela noite.
A explosão do Big Bang aconteceu e se diluiu por todo o meu cérebro. Aquele rosto tremendamente lindo e maquiado, salpicado com um pouquinho de umidade sob a luz da luminária verde que pendia do teto, ficou mais pálido do que normalmente era. E eu não devia estar muito diferente.
Yuno não disse nada. Era como se eu tivesse acabado de revelar que, na verdade, eu era um homem.
— Eu sei que era você naquele quarto, e não o Dongmin. Sei que foi você que eu beijei. — concluí, antes que meu cérebro mudasse de ideia.
Nunca tive um conhecimento invejável de vocabulário, mas nem mesmo Shakespeare seria capaz de descrever as emoções no rosto de Yuno. Precisaria de um batalhão de dicionários do mundo inteiro para explicar aquelas sobrancelhas se arqueando e voltando, aquela boca que abria e fechava com um certo esforço, as veias nos pulsos descobertos completamente aparentes contra a pele ainda muito translúcida.
Isso é o que eu podia chamar de efeito surpresa.
— Ah… Ah. — foi tudo que ele conseguiu dizer, para ver se a própria voz ainda existia. — E quando você… descobriu isso?
— Acho que você sabe quando. — murmurei, baixinho. — Você viu a gente se beijando na praia, não viu?
A resposta dele foi contrair todos os músculos existentes no corpo de forma muito explícita. Se eu estivesse dentro da cabeça de Yuno, tenho certeza de que sentiria um soco no estômago na mesma hora que evocasse aquela lembrança de novo.
Ele desviou o rosto por um momento, e só consegui torcer para que ele não fosse embora.
— Vi.
A resposta saiu tão baixa e áspera que quase pedi para que ele repetisse, mas não foi necessário. Do jeito como seus olhos se fixaram em mim depois disso, quis ser a pessoa a deixar o lugar e deixar o cara em paz.
Mas já era tarde demais para eu ser uma covarde.
— Entendi… Entendi. — balancei a cabeça devagar, como se isso fosse me dar um tempo de formular alguma coisa inteligente. — Eu tentei ir no seu quarto depois… quando percebi tudo. Também tentei te ligar, mas você não estava mais lá, e achei a lanterna, e a pulseira, e fiquei sem saber o que fazer, eu não sabia…
Puxei o ar. Ele estava olhando tão fixamente para mim que me deixava mais nervosa ainda. Normalmente, era isso que eu sentia quando Jeong Jaehyun se dava ao esforço de me olhar, porque parecia ser algo que precisava ser registrado.
Mas comparei sua imagem atual com aquela primeira que vi, naquela festa de Jungkook onde o conheci, quando ele disse meu nome uma única vez para nunca mais mencioná-lo de novo, quando ele me perscrutou por completo que me causou um frio na barriga que nenhum álcool misturado daquela festa seria capaz de causar — e senti duas vezes mais frio por pensar no possível motivo do porquê isso acontecia.
Levou um tempo até que ele decidisse falar de novo:
— E onde exatamente você quer chegar com isso?
Respirei fundo.
— Por que não me contou? Eu passei todo esse tempo achando que tinha beijado ele, que tinha enlouquecido de vez, que nunca mais poderia chegar perto de uma vodka na vida. Eram as únicas coisas que eu podia pensar, já que a possibilidade de você se interessar por mim não fazia nenhum sentido. — minha bochecha queimou por dizer aquilo em voz alta. Ele continuou sério e imóvel, mas talvez uma pontinha do olho tenha brilhado com mais força. — E eu sei que não agi bem quando descobri, mas…
— Esse não é o ponto. — ele puxou o ar com força pelas narinas. — Olha, não quero que você pense que eu também não fiquei confuso e louco por respostas. Passei um bom tempo na viagem sem entender nada, voltando naquela noite, tentando achar alguma brecha, mas o fato é só um: suas palavras foram pra ele, , não pra mim. E por isso não falei nada, porque não queria te confundir ou tornar tudo mais estranho do que já é. Eu devia ter pensado no fato de você estar bêbada e não saber de toda a confusão dos quartos. Devia ter mantido minha convicção de que você queria uma oportunidade pra dizer algo assim pra ele, e que, sim, você se interessar por mim também não fazia o menor sentido. — Yuno apertou os dedos dentro do bolso da calça. Engoli a seco. — Devia ter feito muitas coisas, mas quando você abriu a boca e começou a falar, eu não sei… eu quis ouvir. Quis ser o inimigo do bom senso pela primeira vez. E por um tempo, talvez, eu até quis acreditar, mesmo sabendo que não tinha lógica. E isso foi responsabilidade minha.
Tive vontade de me abraçar. Ou, talvez, pedir para algum staff passando pelo corredor que aumentasse a temperatura do ar-condicionado. Mesmo que não fosse só frio que eu estava sentindo — tinha também a temperatura elevada no meu estômago, se espalhando em ondas pela minha corrente sanguínea.
Achei que tudo entre mim e Yuno mudaria depois de Jeju. Achei que ele voltaria a ser o cara distante e sério que sempre tinha sido antes de me mostrar sua outra versão cheia de piadinhas e covinhas quando me visse. Mas a cada minuto que passava, ficava mais difícil aceitar esse fato. E essa indignação foi o que me levou a estar ali, enfrentando o que andava me deixando acordada à noite, ouvindo coisas que meu cérebro desordenado era incapaz de sustentar, mas que faziam algum sentido quando eu olhava para os olhos dele. Deviam ser os mesmos olhos de DaVinci quando estava pintando sua Monalisa.
— Eu… — tentei de novo, mas meus axiomas aparentemente tinham virado espaguete. — Eu jamais imaginei isso. Sinceramente, achei que você me odiasse.
— Odiar você? — ele franziu o cenho com força.
— É. Talvez não literalmente, mas não é como se você fosse um tagarela comigo. Antes de Jeju, achei que você nem sabia o meu nome.
— O quê…
— Você nem falava comigo. Você literalmente me evitava. Eu nunca iria pensar outra coisa, eu só podia imaginar que você teve uma crise de identidade ou coisa assim nessa viagem. Duvido que crises de identidade sejam coisas que venham da sua casa, mas era a única opção. Eu não…
Escondi os dedos tremendo de nervoso. Eu não costumava ficar tão agitada diante de situações em que eu não prejudicasse fisicamente alguém, nem na frente de garotos que poderiam estampar o outdoor de destaque da Times Square, mas eu não tinha previsto aquilo. Nada daquilo. Não tinha previsto que todos os meus “e se” mais angustiantes, repetidos mentalmente no travesseiro nas últimas semanas, fossem reais.
E essa realidade foi me atingindo aos poucos, grãozinho por grãozinho. Yuno gostava de mim. Yuno queria me beijar. Jeong Yuno, um exímio ex-pianista e um dos mais belos homens do país queria dividir uma jarra de chá gelado comigo em uma linda tarde na Itália, rodeados de dentes-de-leão e joaninhas fofas.
Não tinha nem como se preparar para uma coisa dessas.
Ele continuava me olhando, sem desviar, agora genuinamente surpreso.
— Eu entendo… não tinha como você saber. — essa constatação pareceu ter sido dita mais para ele mesmo do que para mim. Como se Yuno estivesse um pouco magoado consigo mesmo, ou com outra coisa. — Eu nunca pensei em te contar. Na verdade, não pensei em contar pra ninguém. Por isso você não precisa se preocupar comigo, nem me pedir desculpas por aquela noite, eu não…
— Não vim aqui te pedir desculpas. — interrompi. — Quero dizer, eu deveria?
— Claro que não. Você não fez nada de errado.
— Bom, nem você.
— Considerando as coisas que eu queria ter feito com você, , garanto que errado não chegue nem perto da definição.
Já ouvi falar da sensação de andar em brasas, mas naquele caso, seria mais como se eu tivesse sido arremessada e arrastada como gado em uma pista de duzentos quilômetros lotada de brasas. Lenta, muito lentamente. Como se eu tivesse levado um tiro na barriga e o sangue coagulasse por todo o meu intestino delgado.
Não sabia que era possível ficar tonta só com a audição em uso, mas a voz dele estava me tocando como seus dedos me tocaram naquela noite. Como se suas mãos, de novo, fizessem um repeteco do que fizeram na minha cintura, no meu pescoço, nas minhas nádegas, todas as minhas partes fervilhando de desejo para serem tocadas de novo.
Minha nossa, o que é isso? Nunca senti coisa parecida na vida.
E talvez, por esse torpor novo, eu mal tenha percebido minha voz saindo:
— … não paro de pensar em você.
O pomo-de-adão dele se moveu prodigiosamente para cima e para baixo, os olhos brilhando de pura atenção. Meu coração estava batendo na minha garganta.
— Eu confundi tudo naquele dia, eu sei, jamais iria pensar que era você, mas isso não me impediu de não parar de pensar naquele beijo. E depois, quando descobri, as coisas viraram de ponta cabeça, e… continuou sendo você.
Eu não esperava uma reação específica dele, mas talvez não esperasse também que ele franzisse tanto a sobrancelha a ponto de transformar sua expressão inteira.
— A-ah… O que você quer dizer com isso?
Me aproximei dele, de um jeito que dava para sentir claramente o cheiro do seu cabelo, ver o formato dos seus cílios, a curva do seu nariz, cada pequeno detalhe que meu cérebro alegremente já estava pronto para catalogar de novo.
— Quero dizer que tô muito atraída por você, Jeong Yuno. E preciso fazer alguma coisa sobre isso. — encarei seus lábios entreabertos e rosados por natureza. Me sentia automaticamente sob a hipnose de um feiticeiro. — Você tá me entendendo?
Vi ele engolir devagar. Vi os olhos dele me atravessarem como raios laser. Vi a cor da sua pele mudar de branco para translúcido e depois caminhar para um vermelho vivo, como se estivesse sendo amarrado e queimado em uma fogueira.
Eu vi o desejo dele, tão explícito quanto o meu, e tive certeza do que aconteceria.
Não cheguei a planejar esse momento, mas dei graças a Deus por não ter tirado aquele gloss do fundo da minha caixinha de apetrechos, porque naquele momento ele só seria mais uma camada extra e inútil que me separaria do choque total com a boca de Yuno.
Meu pescoço estava agindo, assim como os pés, assim como todos os músculos motores que conseguiam se mexer, todo o meu corpo em formação militar e operacional para alcançar o Nirvana que morava naquela boca, e tudo…
Yuno ergueu o tronco de repente, dando dois passos para trás como se eu tivesse virado um boneco voodoo. Os olhos dele pareciam assustados e zonzos, tudo na mesma pupila.
— Espera. Você… Você tem certeza disso?
— Sobre te beijar? É claro…
— Dongmin. Tem certeza de que não sente mais nada por ele?
Parei com a boca entreaberta. Meus olhos devem ter piscado várias vezes em uma reação automática.
Definitivamente, eu não estava esperando essa pergunta.
Mas pensando bem, era a primeira coisa que eu deveria pensar, considerando que ele me ouviu dizer todas aquelas coisas no quarto. Yuno sabia para quem era, muito antes de eu abrir a boca. Se sentia por mim toda aquela coisa que eu ainda não entendia e prestava atenção, tinha feito sua lição de casa.
Mas enquanto ele tinha considerado a pergunta, eu, por outro lado, não pensei na resposta.
— Isso… não é bem assim… quer dizer, não é o que você pensa. — acrescentei rápido, o lábio tremendo do nada. Seu rosto inteiro ficou mais rígido do que antes. — Eu não vim aqui pra falar do Dongmin.
— Eu sei. E se teve coragem de me dizer tudo isso, quer dizer que provavelmente não está mais com ele.
— E-eu…
— E se não está com ele, talvez eu possa me sentir um pouco menos filho da puta por estar fantasiando dia e noite com a namorada do meu amigo, mas a questão, , é que isso não é o bastante. — ele se aproximou um pouco mais pela primeira vez em eternos minutos. — Eu tô completamente louco por você agora. Na verdade, já faz tanto tempo que não consigo mais pontuar direito, mas desde aquele beijo, minhas obsessões platônicas ficaram horrivelmente gananciosas. Não consigo terminar um dia sequer sem pensar em todas as coisas que eu queria fazer com você, das mais simples às mais impronunciáveis, e isso poderia me colocar numa posição de aceitar qualquer coisa só pra ter você, mas… provavelmente, isso seria mais doloroso do que eu pensei. — suas mãos saíram de dentro dos bolsos, sendo jogadas para o lado de sua perna. — Não posso me esgueirar desse jeito na sua vida nesse momento confuso. Se você ainda hesita quando falo o nome dele, talvez não seja um bom sinal.
E de repente, Yuno rompeu todas as barreiras que prendiam suas pernas ali e começou a caminhar para a porta, sumindo da minha vista tão rápido como se fosse uma alucinação bêbada.
— Ei, espera. — me virei antes que ele passasse pelo batente. — Eu sei o que eu sinto. Talvez não consiga expressar direito porque as coisas ainda estão loucas, e me perguntei várias vezes se teríamos mais de três minutos de conversa, mas sei o que eu quero agora. Sei o que podemos fazer agora.
Em um primeiro momento, ele passou a palma da mão pelo rosto, provavelmente se irritando comigo pela insistência ou com ele mesmo por não ter tido força para cruzar a maldita porta. Quando se virou para mim de novo, estava tentando ser compreensivo ao mesmo tempo que usava seu tom de voz que encerrava assuntos:
— A gente pode ser amigo. Como sempre fomos, ou como estávamos sendo, mas… não posso aceitar você pela metade, . Não a essa altura, quando você já sabe de tudo.
— Yuno…
— Quando você tiver certeza do que quer, aí podemos falar sobre isso de novo. Mesmo. Agora eu preciso ir.
Pensei em ralhar, gritar, bater o pé como uma criança mimada e exigir que ele me deixasse explicar meu lado, mas nada veio. Meu cérebro tinha virado um enorme órgão feito de gelatina. Todas as sinapses estavam desconsiderando minhas respostas perspicazes e as não perspicazes, cedendo à confusão do meu despreparo mental.
Eu tinha certeza do que queria. Mas também tinha do que não queria?
Sem saber essa resposta, ele se foi, me deixando com mais dúvidas e morrendo de sede do beijo que não ganhei.
Eu não sabia que duas semanas podiam durar tanto.
Quando Nellie voltou para o carro, tudo que eu via era o teto estofado e a paisagem deprimente do estacionamento do McDonald's. Tinha um cara lá na frente com um arranjo de flores nas mãos, o que me embrulhou o estômago na mesma hora, e juro que dessa vez não tinha nada a ver com as sete doses de soju que eu tinha tomado há menos de uma hora. Era um ramo de cravos-de-amor em torno de um cravo branco; umas flores que eram mais cheirosas do que bonitas, mas muito, muito parecidas com os crisântemos brancos que eu tinha comprado hoje.
— Aqui. — Nellie largou a caixa com os dois lanches, duas batatas e dois refrigerantes no console central e bateu a porta do carro. — Como é que você sempre fala? Saco vazio não para em pé, né? Estranho, mas faz sentido. Agora come.
Quis comentar algo mais inteligente do que isso, mas meus olhos ainda estavam presos no cara do buquê. Ele agora sorria enquanto falava no telefone antes de entrar no seu próprio carro.
— Eu até mandei flores pra ele. — murmurei, com o rosto colado no vidro. — Achei que não tinha problema. Foi tão simples, sabe? A entrega custou mais do que as flores, mas… Eu mandei flores pra ele. Tem noção disso?
Nellie mastigou uma batata frita enquanto mexia no painel, aparentemente distraída, mas eu sabia que ela tinha escutado. Na verdade, tinha escutado aquilo a noite toda, e por isso apenas suspirou e deu de ombros, antes de infestar o carro com Go Your Own Way.
— Acho que Mingyu me mataria se eu mandasse flores pra ele.
— Ele é machista?
— Eu diria conservador. Mas o lance das flores é uma questão de economia. — a batata fez “crec crec” quando encontrou seus dentes. Arqueei as sobrancelhas. — Flores no pico da primavera? Uma fortuna. Com cartão ainda por cima? — ela fez um barulho de “pff” com os lábios. — Não sei se eles superfaturam os produtos ou papel vagabundo na Coreia vira artigo de luxo nessa época.
Mordi uma batata, agora apoiando a cabeça no encosto do banco logo depois que o cenário aparentemente feliz do cara das flores sumiu do estacionamento. Até mesmo se ele estivesse levando aquilo pra amante seria mais condizente do que eu e meu pedido de crisântemos com um pequeno cartão e meu garrancho feminino quando escrevi: Espero que você ainda queira que eu ligue — .
Eu juro que os crisântemos brancos faziam sentido. Combinavam com o ar misterioso e elegante de Yuno, fora que simbolizavam minha sinceridade. Um ar minimalista que era chique, não minimalista de avareza. Enfim, foi o que eu li no Google. E o Google sempre sabe de tudo.
Devia ter lido também qual era o timing correto para se presentear um cara que estava sendo inflexível sobre seus sentimentos, mas acho que até o senhor Google ficaria me devendo dessa vez.
— Você está corando. — Nellie observou, reprovadora. — É porque Stevie Nicks está cantando sobre sentir saudades de um cara gato ou porque você sabe que fez besteira?
— Qual você acha? — estiquei a mão para pegar mais batata, mas Nellie a afastou com um tapa.
— Não desconta nas minhas batatas. E essa foi só mais uma besteira que você fez desde que chegou aqui, mas agora com um cara diferente.
Estreitei os olhos.
— Obrigada pelo seu consolo.
— Você diz das dez garrafas de soju do pub ou da caixa de cerveja de anteontem?
— De todas elas. E dos cinco sex on the beach que você vai pagar amanhã depois do trabalho.
— Genial, mas acho que isso ainda não vai fazer ele ligar pra você.
Soltei um muxoxo, voltando para a janela.
— É, acho que agora eu consegui chegar no ponto em que ele me ignora de vez e passa a atravessar a rua quando me vê. Como fui chegar nessa situação, Nellie?
— Como toda diva do pop chega: beijando o cara errado. — mais um “crec crec” de batata frita crocante. Virei a cabeça para ela. — Digo, nesse caso você beijou o cara certo, mas não sabia disso, e daí beijou o errado achando ser o certo… já deu pra entender. É uma baita cilada, mas você é , então… — fuzilei ela com o olhar antes que terminasse. — Você vai conseguir resolver, tenho certeza que vai.
Toquei uma das batatas na ponta do meu queixo em uma atitude completamente mórbida, mas que explicavam o teor da bagunça na minha cabeça, que ia de bêbada até uma tentativa de não estar mais bêbada.
— Não sei, não. Dessa vez, alguma coisa não tá batendo. Não entendo de romance, mas sempre achei que o cara acreditava quando a garota dizia que estava a fim.
Nellie bufou, virando-se para mim no banco do motorista.
— , eu já disse: não importa quantas flores, cartas ou cestas de frutas você enviar, esse não é o ponto. Não é que o Jaehyun não acredite em você. Ele só não quer pular de cabeça em algo que parece muito incerto para ele. As pessoas têm direito de duvidar das intenções das outras depois de verem uma cena daquelas. — concluiu ela, afundando no banco enquanto dava uma mordida generosa no hambúrguer. — Mas confesso que não pensei que fosse ser tão difícil assim. As flores eram tão bonitinhas, custava ligar?
Sim. Bonitinhas, simples e sinceras, assim como ele. Talvez eu não tivesse acertado o timing, mas, com flores, eu estava no caminho certo.
— Eu não sei mais o que fazer. — confessei, segurando agora o refrigerante. — Eu gosto dele. Mais do que achei que fosse possível gostar, considerando que mal falei com ele nos últimos anos. E talvez dizer aquilo no camarim tenha sido…
— Inusitado e precipitado.
— Sincero.
— Na cabeça do Romeo que achou que estava navegando no seu mar de crush platônico, foi como um soco na cara, .
Bufei.
— Ok, nada disso muda o fato de que… eu quero ficar com ele. Isso vale, não vale?
Nellie arqueou as sobrancelhas para concordar enquanto a boca estava ocupada com a mastigação do hambúrguer.
— Sim, vale. Mas o que você tem feito para mostrar que o Dongmin é carta fora do baralho?
— Ai, fala sério! — bufei, erguendo as costas como se tivesse levado uma picada de mosquito. — O Dongmin... eu disse que precisávamos de uma pausa, que era melhor focar na amizade. Falei pra esquecer essa história. Falei mesmo. — pontuei, mas imaginei logo de cara que eu devia estar parecendo tão ridícula quanto meu reflexo naquele espelho retrovisor do carro mostrava.
— Você saiu pra jantar com ele ontem!
— Eu não saí. Ele apareceu no meu apartamento com pés de galinha! Empanadas! O que você queria que eu fizesse? — disse em um tom óbvio, porque mandar alguém embora depois de trazer pés de galinha crocantes era no mínimo uma atitude insensata.
— Queria que você mandasse a real pra ele!
— Foi bem real quando eu disse que a farra dos beijos na boca iriam acabar, e ainda frisei que ele sofreria as consequências no meio das pernas caso me agarrasse de novo, isso não conta?
— E quem é ele? Um cara que segue regras? Ah, por favor. — ela revirou os olhos, mordendo mais uma vez o hambúrguer, falando em seguida com a boca cheia: — E por acaso contou pra ele porque ele sofreria as consequências? — perguntou, e eu simplesmente puxei o meu lanche e permaneci calada.
Todas as soluções temporárias em um tempo de minutos estavam entre aquela carne e aquele cheddar, mesmo que Nellie tenha simplesmente grunhido e entendido tudo sem eu dizer uma palavra sequer.
— Você tá ferrada, . Porque, mesmo sabendo que não sente nada pelo Dongmin, você não consegue dar um basta definitivo porque tem medo de perder ele.
Suspirei.
— Ele é meu melhor amigo, Nellie.
— Eu sei. Mas ele é seu melhor amigo que, do nada, diz que te ama e que quer ficar com você depois de te ver se divertindo com outro cara. Todo aquele tempo juntos, colados um no outro... Você sabe que ele não é burro, né? Só não tinha dito nada antes porque você estava sempre disponível.
— Nossa, isso foi... vulgar.
— Até pouco tempo atrás, você não negaria nenhuma vulgaridade com ele.
Não falei nada. Apenas balancei a cabeça e suguei a bebida de uva que normalmente acharia horrível, mas naquele momento, era uma das únicas coisas que conseguia descer. Nellie era uma das únicas pessoas que me conheciam que não parecia incomodada com a chance iminente de que meus dedos perdessem o equilíbrio ou tivessem espasmos estranhos que deixariam todo aquele líquido cair em cima de seus bancos de couro, e por isso ela merecia estar no meu top 3 de pessoas favoritas no mundo.
Um toque de mensagem soou bem no fundo dos meus pés. Devagar, tateei o chão abaixo do porta-luvas para sentir o aparelho ali jogado, que não faço ideia de como foi parar lá, e entreguei a bebida para Nellie, pegando o celular com certa ansiedade porque só depois me toquei de quem poderia ser.
Mas meu lado romântico foi bruscamente frustrado com o nome que apareceu no visor.
— Yugyeom tá perguntando sobre a festa de lançamento de novo.
— Nem me fala. Vamos ser obrigadas a ir naquela bagunça, né? — Nellie fez outra de suas caretas. — Você acha que eu deveria contar pra nova peguete dele o caminho pro quarto principal? Seria hilário ver ela entrando lá e encontrando outra já esperando. Se não for isso, preciso de motivos mais fortes para largar meu momento de paz testando uma técnica de pontilhismo que pode me render uns 400 dólares.
Fitei ela por um tempo até estalar um dedo na sua direção, lembrando do principal.
— Pelo menos vamos conhecer o Jay Park. Não é motivo o suficiente?
Ela arregalou os olhos.
— Ô, se é! Não vejo a hora de avaliar aquelas tatuagens de perto. E o sorriso… Mas claro, sempre do lado do meu namorado perfeito.
— Gosto da sua queda por rappers. Significa que nunca vamos nos interessar pelos mesmos caras.
— Isso aí. — ela ergueu a palma da mão e batemos um hi-five. — Ah, e você sabe que o Yuno vai estar lá, né?
— Eu tava tentando não lembrar disso. — grunhi, perdendo o interesse em morder meu hambúrguer.
— Essa é a sua chance. — respondeu Nellie, batendo com um ombro no meu. — Conversa com ele. Nada de insistir ou pressionar o cara. Só... conversa. Essa é uma das lições da vida adulta: saber conversar de verdade.
— Isso me deixa meio nervosa. Vou começar a fazer umas perguntas estranhas, tipo: qual sua marca de leite favorita? Ele vai perceber que eu tô só puxando papo.
— Que perceba! Jaehyun não pode ser tão frio pra não valorizar uma garota que tá tentando. Se ele disse que já gosta de você, então ele vai te ouvir, independentemente das esquisitices que você falar. — ela moveu os dedos para pedir agora um pedaço do meu lanche, que só tinha o diferencial de ter o dobro de picles. — E espero que ele decida logo o que vai fazer, antes que eu precise bolar um fake dating para você e fazer as coisas andarem.
Baixei os olhos. Alguém tinha respondido à mensagem de Yugyeom no grupo, confirmando sua presença para amanhã. Alguém que eu já sabia, mas queria adiar esse pensamento até o fim.
— Dongmin também vai estar lá. — disse em um sussurro cansado.
Não posso dizer que não via Dongmin com frequência, mesmo depois do festival, mas era algo tão… formal. Não formal de sério, era um formal de limites, de aceitação de amigos, de ter uma linha muito clara passando entre nós dois, dividindo as coisas muito bem. Ele não era mais o motivo do meu coração bater tão forte, mesmo que continuasse aparecendo de surpresa na minha casa, mas agora eu ficava acordada à noite por causa das palavras de Yuno e pela sugestão de escolha que ele me deu quanto à Dongmin. Quando você tiver certeza do que quer, vamos conversar. Puta merda. Eu tinha certeza que queria pular em cima dele, não era o suficiente?
— Mais um motivo. — continuou Nellie, terminando de engolir um enorme pedaço de picles. — Talvez te ver longe do galã dê pra ele um motivo a mais pra acreditar que vocês são só amigos e não gêmeos siameses. Você me entendeu?
— Claro. Vou cortar o cordão umbilical com meu BFF.
— Pois muito bem, é assim que se fala. Talvez eu o assedie com a ideia de que possa ter enchiladas em algum canto daquela casa, mesmo que Yugyeom deteste qualquer coisa com pimenta. Talvez o Dongmin aceite. Só talvez, ele não é tão burro quanto eu gostaria. — Nellie largou o hambúrguer pela metade dentro da caixa e colocou os pés na direção. — Agora vamos sair desse estacionamento e abrir as janelas antes que a gordura dessas batatas penetre na minha roupa. Deus do céu, minha nutricionista não pode nem sonhar que estou fazendo isso.
Assenti com a cabeça, continuando na mesma posição, olhando de novo na direção do cara das flores desaparecido e pensando que eu estava ficando sem opções para fazer aquele coração secular dentro do peito de Yuno bater mais rápido de novo, mas poderia deixá-lo saber que eu queria. Acima de tudo, deixá-lo saber que eu queria aquela lanterna que nunca recebi.
Quando alguém perguntar como deve ser uma festa entre jovens adultos em Seul, e rirem logo depois porque de jeito nenhum uma coisa nesse país pode ser no estilo American Pie, acabe com esse mito imediatamente. Ou, em vez disso, se não quiser se responsabilizar sobre as impressões alheias de culturas alheias, deixe a pessoa sentir a verdade na pele.
Se Yugyeom morasse em uma casa grande com piscina, isso com certeza já teria virado um Spring Break. Mas com a população total de quarenta pessoas reunidas, bebendo, dançando e demonstrando animadamente suas habilidades de fazer bolas de fumaça com erva criminosa, agradeci por ele só morar em um apartamento perto de Gangnam. Perto de Gangnam já soava bastante caro. Tipo, bem caro.
Mais importante do que qualquer uma dessas coisas era o motivo da festa. Yugyeom recentemente tinha lançado seu trabalho solo pela nova empresa, AOMG, e seu nível de popularidade andava atingindo números nunca antes vistos. Fiquei menos surpresa do que a maioria das pessoas ficou ao descobrir que metade desse sucesso estava vindo de um compartilhamento clandestino de nudes e… talvez uns dias a mais na academia.
E não, também não fiquei surpresa ao saber que ele estava adorando isso.
Quando passei pelo batente da porta com Nellie, fui imediatamente esbarrada pelos ombros de um garoto salpicado de papel prateado, e quase recebi a primeira enxurrada de cerveja nos sapatos (especificamente, meu tênis Converse, que já estava relativamente acostumado a esse tipo de coisa).
— Opa! Foi mal aí. — ele disse em sua melhor voz de bêbado, e me olhou de cima a baixo quando estendeu a mão. — Parece que a sua saia combina com o meu nome.
— Quê?
— Lúcio. Marcas italianas. — seu dedo torto apontou para a minha saia e seu próprio queixo. — Lúcio é meu nome, aliás. Você é…?
— Ninguém. Só uma visita. — respondi rápido, puxando Nellie para longe, me embrenhando na multidão o mais rápido que os outros ombros me permitiam. Ela estava rindo quando já estávamos longe o bastante.
— Marcas italianas. Meu Deus, isso foi tão ruim.
— Foi mais do que ruim. Homem corajoso me assusta mais do que aqueles que tomam precaução de não abrir a boca.
— Quer fazer o bolão de quantos corajosos vamos encontrar hoje? — Nellie murmurou, espichando o olhar à procura de um certo cara de 1,86 que tinha chegado ali horas antes para ajudar nos preparativos. Ou degustar as bebidas.
— A resposta vai ser muitos, mas não quero calcular esse número exato.
Assim que vimos o cara super alto, é claro que ele já estava andando em nossa direção. Mingyu cruzou a sala através da fumaça, tirando Nellie do chão em um abraço que me deixava deprimida ou apaixonada, não sabia bem ao certo, e a soltou logo depois, talvez percebendo que eu ainda estava na fase de solteira.
— ! Bonita roupa. Amor? — ele usou um tom sugestivo, e Nellie apenas deu de ombros, confirmando que sim, ela não me deixaria sair de casa com jardineiras. Ou jeans rasgados nos joelhos e mocassins. Ou com suéter tricolor.
Com ela, eu era obrigada a fazer uso de coisas que minha mãe carinhosamente taxaria de “piranha preguiçosa”: saia jeans a quilômetros do joelho, argolas enormes que passavam o punho de um bebê e blusas que, de uma forma ou de outra, chamariam a atenção para os meus peitos. Sem falar nas três camadas adicionais de rímel e no gloss que fazia minha boca inchar igual uma paciente de preenchimento labial.
Nas primeiras vezes que fui cobaia, não me reconhecia no espelho. Achava que aquela loira estranha que cruzou meu caminho em um prédio espelhado estivesse tentando me mudar, tentando gritar o quanto me achava errada de alguma forma. Mas ela só me deu um rímel e sugeriu que eu deixasse outras pessoas além do meu espelho verem a tatuagem de delta no meu ombro.
E, desde então, passei de bonitinha para uma gata completa em questão de dois meses.
Odiava quando ela estava sempre certa sobre algo tão banal quanto tecido.
— Não conta pra minha mãe que estou usando uma blusa que mostra o meu umbigo. — disse, tentando relaxar a mão direita, que estava subindo o tempo todo para baixar a parte inferior da blusa.
— É pra eu não contar sobre a lingerie combinando também? — Nellie arqueou as sobrancelhas. Quase engasguei, mesmo sem água. — Brincadeira, mas pelo visto, você está usando lingerie combinando.
— É claro que não!
— Por que não? Você tá gostosa o suficiente pra não terminar a noite sozinha. Devia ter aceitado aquele vestido tubinho que eu sugeri ao invés desse decote quadrado que esconde a melhor parte.
— Já conversamos sobre a maneira de falar sobre mim como se eu fosse uma cabeça de gado. Ou a sua ninfeta. — grunhi. Mingyu segurou uma risada.
— Que tipo de gado ela seria? — perguntou para Nellie. Ela deu de ombros.
— Um cabritinho covarde, talvez. Já como ninfeta…
Estreitei os olhos e, com um resmungo, perguntei:
— Onde estão as bebidas desse lugar? E, por favor, nada de narguilé. Isso é coisa de adolescente.
Mingyu sorriu e apontou para o outro lado da sala, onde um tambor enorme e totalmente gourmetizado apoiava vários fardos de cerveja, empilhados um em cima do outro. Logo ao lado, uma seleção de bebidas destiladas engarrafadas para quem tivesse coragem suficiente de misturá-las no mesmo copo, junto de uma seleção de canudinhos coloridos com guarda-chuvinhas, azeitonas de papel e de formato espiral.
Quase deu para me sentir em Jeju de novo.
A porta se abriu de repente, e pelo menos seis cabeças entraram de uma vez. Apontei o tambor para Nellie, que gritou um “te vejo depois” e eu assenti, sabendo que se não saísse dali seria atropelada por um dos novos convidados.
E um deles era Jackson Wang, que fiz de tudo para ignorar e ir logo atrás da bebida. Infelizmente, minha convivência com idols não me preparava tão bem na hora de encontrar outros idols. Ainda não sabia fingir costume o suficiente para não dar uma de fã.
Quando cheguei ao bar improvisado, mal tinha colocado algo no meu copo quando escutei a voz gritar do meu lado:
— Caramba, como você demorou! — Dongmin surgiu de algum lugar do meio daquela multidão, quase fazendo com que eu derramasse ponche vermelho em cima da sua camiseta cara da Burberry. — Te liguei umas cinco vezes pra dizer que ia te buscar. Onde você colocou seu telefone?
— Humm… tô fazendo um detox dos eletrônicos. Você devia tentar também, as pessoas estão ficando doentes. — dei de ombros, engolindo aquela bebida com inocência. Dongmin revirou os olhos.
— Aham, claro. Qual foi o documentário que você viu na Netflix dessa vez? E sem mim, ainda por cima.
— Nenhum, Lee. E você? O que está fazendo aqui? Achei que estivesse a caminho das Filipinas pra gravar um comercial de pasta de dente. Ou seria de fio dental?
— É bonitinho você zoar com o fato de eu não discriminar o pessoal da publicidade. Eles estão tentando sobreviver, .
— Eu também, e nem por isso conseguiria sorrir enquanto falo de iogurte pra prisão de ventre.
— Isso era uma proposta, só uma proposta. Vai lembrar disso até quando? — ele se indignou, e amei ver as ruguinhas de sua testa vincando e deixando à mostra, mesmo que muito pouco, traços imperfeitos daquela celebridade. — Que seja. Não peguei nenhum avião porque hoje é um dia especial, um dia muito importante pro Yug, então todo mundo tinha que estar aqui.
Fiquei tocada com a forma como ele disse “hoje é um dia muito importante pro Yug” e virou a cabeça para observar nosso amigo lá do outro lado, cercado pelos seus companheiros antigos e pelos novos, sorrindo como se o mundo fosse dele.
— Também acho, mas não conta isso pra ele. — falei, pensando alto. — Para todos os efeitos, vim por causa do Gray.
— Você não curte rappers.
— Mas curto caras bonitos. E a Nellie sempre me diz que no futuro, por influência do Namjoon e do Wonwoo, os rappers vão ficar mais populares e mais bonitos ainda. Então, vou acreditar nessas previsões e começar a vivê-las.
Soltei uma risada antes de mais um gole. Dongmin apertou os lábios e revirou os olhos de um jeito nada convencional. Não era daquele jeito de quem vai rir logo depois, mas do jeito que dizia que alguém estava irritado. Se eu não o conhecesse tão bem, diria que ele parecia com…
— Sabe como é doloroso elogiar outros caras na frente de um pobre rapaz que tá apaixonado por você, não sabe?
Ciúmes. Claro. Como se as coisas já não estivessem estranhas o suficiente.
Aquele parzinho de palavras “apaixonado” e “Dongmin” juntas na mesma frase já era anormal o suficiente, agora relacionadas a mim, fazia o meu cérebro automaticamente soltar um: “esperem um pouco, aqui é mesmo o planeta Terra? Dimensão Y ou X? A prova da existência da Matrix?”
Esse tipo de coisa ainda me tirava todas as respostas dignas que eu poderia dar em qualquer situação, porque era posta em um esquema difícil. Mesmo assim, abri a boca para tentar dizer alguma coisa, mas um grito familiar de Jungkook surgiu a poucos passos da entrada, anunciando a chegada de mais um convidado. Um que eu particularmente estava esperando.
Me afastei de Dongmin num reflexo.
— Já conversamos sobre essas coisas, não conversamos? — sussurrei, tentando não parecer frustrada. Ele passou a mão pelo cabelo, concordando.
— Desculpa, é automático. Ainda não consigo desligar esse botão, , e pra ser sincero, nem sei porque deveria…
— Pra não deixar as coisas difíceis entre a gente, Dongmin. Resposta simples.
— Isso não é tão simples.
— Sempre foi muito simples ficar de boa com você, Lee. Até quando quebrei sua caneca do Baby Yoda, você gritou e voltamos ao normal uma hora depois. E você não pode se apaixonar por alguém que quebrou a sua caneca favorita.
Bufei. Me senti extremamente patética, e talvez esperei que ele reagisse com um revirar de olhos e saísse de perto, mas então aquele sorriso desenhado foi se abrindo aos poucos, da forma mais sedutora possível.
— Acho que é exatamente por isso que eu apaixonei.
Fui eu quem revirou os olhos.
— Dongmin.
Automaticamente, voltei a olhar para o lado. Eu poderia estar louca, mas juro que vi Yuno olhando para mim. E ele não desviou o olhar, mesmo quando eu comecei a encarar. Não sabia interpretar o que aquela expressão significava, mas vi quando suas pálpebras baixaram rapidamente, me avaliando de cima a baixo antes de voltar a prestar atenção no que Jungkook e mais três pessoas estavam dizendo.
— Posso pelo menos dizer que você tá muito linda hoje? — a voz de Dongmin me trouxe de volta à realidade. Demorei alguns segundos para me livrar da distração e assenti, desnorteada.
Era engraçado como Dongmin dizia que eu estava bonita, enquanto Yuno expressava isso apenas com o olhar.
E talvez eu já estivesse bêbada antes mesmo de tocar na minha primeira bebida, porque simplesmente soltei um:
— Eu vou ali rapidinho, tá bom? Já volto. E pega leve no ponche porque não vou te levar pra vomitar.
— Ei, calma aí, eu ia te chamar pra dançar…
— Sem chance, já deu a minha cota de vexames do ano. Mas aposto que o Jungkook tá doido pra mostrar a versão dele de Me and Julio Down By the Schoolyard.
Ele abriu a boca, com certeza pensando em uns catorze argumentos diferentes para me pedir para não deixá-lo ser a companhia de Jungkook quando o assunto era Paul Simon, mas fui me embrenhar na multidão, costurando a galera em direção à gola V escura que segurava um copo do que parecia ser chá gelado.
Talvez ele pudesse querer dividi-lo comigo.
Continua...
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NOTA DA AUTORA > Olá! ESTAMOS EM MINI-FÉRIAS!
Mas vamo ter um momentinho informativo pra você não ficar muito perdida? O feriado Chuseok é como se fosse o "dia de ação de graças" na Coreia. É um momento de celebrar a colheita, agradecer aos ancestrais e fortalecer os laços familiares e (por que não?) aproveitar com os amigos também. Ele dura 3 dias e, por isso, nossa fic talvez tenha ficado bem pequenucha, mas muito, muito divertida!
Agradeço de coração a quem acompanhou essa história comigo, desde que eu me deixei levar pelo plot da minha amiga Bianca e segui em frente. Agradeço minha melhor amiga Beatriz por ser a fã número 1 de Murphy e sempre me lembrar que eu, dramática que sou, teria a capacidade de fazer uma história engraçadinha e levinha SIM.
Agradeço as meninas que apareceram depois lá no insta, ou pelos comentários, ou pelo simples fato de que finalmente encontraram uma fanfic multifandom nesse multiverso do k-pop. Obrigada a todas vocês, de verdade! Que o feriado da 97 line tenha te trazido conforto e divertimento em dias difíceis e um pouco de distração da correria da vida.
E pra não perder o costume: deixa um comentário pra eu saber se você gostou também e me segue lá no insta pra ver mais histórias minhas: @sialversion.
beijos,
Sial ఌ︎
Mas vamo ter um momentinho informativo pra você não ficar muito perdida? O feriado Chuseok é como se fosse o "dia de ação de graças" na Coreia. É um momento de celebrar a colheita, agradecer aos ancestrais e fortalecer os laços familiares e (por que não?) aproveitar com os amigos também. Ele dura 3 dias e, por isso, nossa fic talvez tenha ficado bem pequenucha, mas muito, muito divertida!
Agradeço de coração a quem acompanhou essa história comigo, desde que eu me deixei levar pelo plot da minha amiga Bianca e segui em frente. Agradeço minha melhor amiga Beatriz por ser a fã número 1 de Murphy e sempre me lembrar que eu, dramática que sou, teria a capacidade de fazer uma história engraçadinha e levinha SIM.
Agradeço as meninas que apareceram depois lá no insta, ou pelos comentários, ou pelo simples fato de que finalmente encontraram uma fanfic multifandom nesse multiverso do k-pop. Obrigada a todas vocês, de verdade! Que o feriado da 97 line tenha te trazido conforto e divertimento em dias difíceis e um pouco de distração da correria da vida.
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